Terça-feira, Dezembro 01, 2009

O Cérebro do Futuro


Estadão - Como a internet melhora a inteligência das pessoas?
Gary Small - Ela de certa forma cria uma extensão da memória biológica – temos um ‘HD externo’ com imensa quantidade de informações acessível a qualquer momento. Sacrificamos a profundidade pela amplitude.

Estadão - Qual é o lado positivo e negativo da internet para as crianças?
Gary Small - Os positivos são a possibilidade de se relacionar e colaborar em rede e o acesso instantâneo à informação. Os negativos incluem a o comprometimento da atenção e da dependência da tecnologia.

Estadão - Como será o cérebro no futuro?
Gary Small - Prevejo que vamos ter implantes de micro-chip no cérebro que nos ligarão a internet e a discos rígidos externos. Não vamos mais usar mouse e teclado. Vamos pensar em algo e instantaneamente isso vai acontecer.

(Entrevista de Gary Small, neurocientista e autor do livro "iBrain - Sobrevivendo à alteração tecnológica da mente moderna" ao caderno Link, do Estadão, em 30/11/09)

Tenho mencionado em palestras e oficinas sobre educação e tecnologia que os cientistas estão prevendo o implante de micro-chips nos cérebros humanos para os próximos anos (ou décadas). Já tinha ouvido falar sobre esta perspectiva e, conforme dados anteriores, a previsão era que, até 2030 estaríamos equipados com estes chips e, literalmente, turbinados com muito mais dados e informações, conforme Gary Small afirma na entrevista ao caderno Link do Estadão.

Brinco com o público presente dizendo que desde já abro mão de qualquer chip que seja destinado a minha pessoa. Passo o direito de uso a qualquer um da platéia... Estou satisfeito com o meu bom e velho HD legado por meus pais... Nestes 42 anos de uso, até o presente momento, não há reclamações, falhas graves e, por conseguinte, necessidade de devolução, troca ou pagamento de volta...

Concordo com Small quando afirma que a internet nos provê um "HD externo" poderoso e também faço uso dele. Porém não quero ser um ciber dependente, ou seja, uma pessoa que para tudo depende das tecnologias e que não viveria sem elas... Considero-as parte do cotidiano há anos, utilizo com grande frequência, considero-as válidas principalmente no plano profissional e também, em certa medida (sem erro de dosagem) interessantes para o plano pessoal, mas a afirmação final do neurocientista americano, na qual diz que "sacrificamos a profundidade pela amplitude" é o que muito me preocupa...

Vejo que o que prevalece na rede, infelizmente, é a superficialidade e a incapacidade de realizar as necessárias e fundamentais sinapses - como se estivéssemos legando esta essencial característica humana aos computadores, a rede e aos sistemas informatizados... E tenho medo de um mundo vazio, vago, sem ideologias, utopias, sonhos... Imagino um amanhã onde as pessoas estejam dispersas, perdidas, sem rumo e, em especial, desprovidas da necessária paixão, da capacidade de se relacionar com intensidade com as pessoas e o mundo ao seu redor!

Gary Small falou sobre "o comprometimento da atenção" e a "dependência da tecnologia" entre as novas gerações... E isto é fato, já está acontecendo, preocupa demais... As crianças estão dando mais espaço em suas vidas aos computadores e a rede do que a bola, a boneca, o esconde-esconde, os jogos de tabuleiro, a canetinha de colorir, os quadrinhos, a interação e a brincadeira com as outras crianças...

A TV deixou de ser a babá eletrônica e, em seu lugar surgiram outros recursos tecnológicos que são ainda mais poderosos quanto as suas possibilidades de magnetizar as crianças nas cadeiras, fazendo-as ficar por horas e horas diante de telinhas onde jogam, conversam com outras pessoas que estão distantes ou próximas (algumas vezes na casa vizinha), lêem rapidamente algumas informações (sem se aprofundar), assistem vídeos engraçados (ou não)...

É muito bacana saber que é possível conversar pela rede com pessoas que estão do outro lado do mundo ou mesmo com aquelas que estão próximas mas com as quais não podemos estar presencialmente juntos... Colaborar em rede é outra perspectiva fantástica que já está acontecendo, ou pelo menos espero que assim o seja, pois é o que acredito, por exemplo, estar fazendo através do Escolhendo a Pílula Vermelha, do Cinema de Primeira ou do Planeta Educação, como tantas outras pessoas o fazem na web através de suas colaborações em blogs, redes sociais, Twitter, YouTube...

Mas gosto ainda de pensar que nossas melhores possibilidades na web dependem de nossas ações fora dela... E o que mais me preocupa é justamente perceber que no final das contas estamos passando tanto tempo diante das telinhas, navegando pela internet, que pouco (ou menos do que deveríamos) estamos vivendo no mundo extra-virtual ou seja, nas ruas, escolas, campos, construções, como dizia Geraldo Vandré!

Por João Luís de Almeida Machado

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