Sexta-feira, Dezembro 04, 2009

As Cirurgias Plásticas e nossa auto-estima

Imagem do filme "A Outra Face", de John Woo,
com John Travolta e Nicolas Cage, em que por
meio de cirúrgias plásticas eles trocam de rosto...

Vi matéria, esta semana, num jornal da televisão, que dizia ser o Brasil um dos países onde se realizam mais cirurgias plásticas em todo o mundo. Se me recordo bem, os números anuais estão na faixa das 600 a 700 mil intervenções cirúrgicas/ano. E a maioria esmagadora de plásticas realizadas é motivada por razões estéticas ou, para ser mais objetivo, porque as pessoas querem melhorar algo nelas mesmas...

Ou pensam que o nariz é grande demais, ou que as orelhas de abano atrapalham seu visual, ainda há aqueles que imaginam ser sua “barriguinha” saliente um tanto quanto inadequada para sua imagem aos olhos dos outros... Para que se sintam bem, então, encaram os bisturis, pagam contas que são relativamente salgadas (de acordo com o saldo bancário de cada um e dos médicos e hospitais onde serão realizadas estas cirurgias) e partem em busca de seu novo “eu”, remodelado pela ação da medicina moderna, que faz verdadeiros milagres (e que, por vezes, realiza autênticos e irremediáveis desastres).

Acho justo que as pessoas queiram se sentir melhor e que se submetam a cirurgias, mas vi nesta matéria e nos números mencionados que a auto-estima está um tanto quanto baixa entre muitos destes pacientes que se submetem as plásticas e demais práticas que promete lhes melhorar a aparência... Parece que há gente demais que gosta menos de si do que deveria e que, para ficar melhor aos olhos de outros, prefere ir para a mesa de cirurgia...

Há ainda a questão da forma como as demais pessoas nos avaliam e como isto é fator importante, a opinião alheia, para tanta gente... Nestes casos mais extremos, parece até que esta visão externa, de terceiros, pesa mais do que o que os próprios indivíduos pensam sobre si...

Todo mundo quer ser mais belo, prolongar a juventude, ampliar suas possibilidades sociais pela aparência, buscando formatos e fórmulas que se adequem a demanda da sociedade. Isto é deveras preocupante se pensarmos que tal demanda, de tão poderosa, atinge até mesmo adolescentes e jovens, que insatisfeitos com seus corpos (e rostos), partem também – muito precocemente – para as mesas de cirurgia!

E os números, que são expressivos, mas que para muitos podem não parecer tão alarmantes, merecem atenção. Pensem bem, se a média anual é de 600 a 700 mil pessoas, teremos um contingente de aproximadamente 6 a 7 milhões de pessoas que em dez anos passaram por cirurgias plásticas e, como dissemos, a maioria por questões estéticas... Levando-se em consideração também que estes números não são estáticos e que estão em elevação... É como se a população de uma cidade como o Rio de Janeiro, toda ela, passasse por estas intervenções cirúrgicas...

Mais do que a aparência, o que está muitas vezes em jogo é a própria auto-estima destas pessoas... E é aí que mora o perigo... Não é mesmo?

Por João Luís de Almeida Machado

Quarta-feira, Dezembro 02, 2009

Quanto custa a corrupção?

Novos mensalões (ou mensalinhos) estouraram nos últimos dias em Brasília... Desta vez o partido que está com a corda no pescoço é o DEM, ou democratas, como gostam de ser chamados. O governador do Distrito Federal, José Arruda, seu vice, todos os secretários (alguns de legendas aliadas que compunham até ontem e hoje a chamada base de apoio, que obviamente diante da enxurrada de denúncias tiraram o time de campo) e empresários que prestam serviço ao referido distrito, capital do país, estão envolvidos.

E o mais interessante, tudo documentado, com gravações que deixam claro que alguém pagou e que, em contrapartida, houve quem recebesse, inclusive com áudio e legendas no caso das gravações que ficaram muito baixas... "Falta o que para prender os bandidos?", ouvi pela manhã um mais do que indignado Arnaldo Jabor na Rádio CBN, a caminho do trabalho... Não há provas suficientes? O próprio Arruda declarou para a Folha de São Paulo que recebeu dinheiro algumas vezes e, somente uma vez das mãos do denunciante, mas que tudo era apenas "grana" de campanha, do partido...

Tudo é possível e limpo, tamanha a cara de pau destes homens que se utilizam do poder público para explorar, de tudo quanto é jeito, o erário de municípios, estados e até, como podemos lembrar do mensalão anterior (aquele do José Dirceu, Marcos Valério, Genoíno...), do governo federal... Pensam que para sempre suas desculpas e atalhos serão suficientes para acobertar-lhes e livrar-lhes a cara? Claro que não, o povo já está de olho, a imprensa está dando a devida e necessária cobertura, tudo está indo para a TV, jornais, rádios, internet...

Mas, quanto custa a corrupção? Certamente um montante que não temos como calcular, mas que está embutida até mesmo em cada clipe e folha de papel compradas por governos das diferentes instâncias em nosso país (assim como há denúncias e comprovações quanto a corrupção nos demais poderes também, mesmo no caso de Brasília, com procuradores de justiça sendo citados em documentos dos processos como co-participantes, ou seja, tirando algum por fora).

Mas voltemos aos custos... Imaginem que por trás de contratos como aquele da saúde que está sendo divulgado nos jornais, no caso de Brasília, há propinas embutidas de no mínimo 10% (ou mais). Sabem o que isto representa? Que a cada dez casas populares construídas seria possível erguer mais uma... Se o montante de casas sobe para 50, seriam mais 5 unidades habitacionais e 5 famílias beneficiadas, não é mesmo?

E se pensarmos em serviços como a limpeza pública... Se uma prestadora de serviços recebe um milhão por mês, ao final do ano serão 12 milhões... E dez por cento (ou até mais) vai para os bolsos destes larápios... Significa dizer que daria para ter 36 dias a mais de serviços de limpeza pública sendo realizada sem que fosse necessário arcar com este custo...

E olhem que estou trabalhando apenas com os números que apareceram para o contrato de Brasília, da área de saúde, que revelaram propina de aproximadamente 10%... Isto é só, por suposto, a ponta do iceberg... E os efeitos são tão nocivos para a vida da população quanto o aquecimento global que ameaça as geleiras polares... Pode ser 15, 20, 25% ou até mais o montante que vai para o bolso destas quadrilhas... E, por certo, Brasília é apenas um exemplo, aquele que chegou aos jornais... E o seu município ou estado, como está? Olhe para onde está indo seu dinheiro, duramente conquistado, e que é repassado ao governo em impostos (equivalentes a mais de 5 meses de seu trabalho árduo)...

Por João Luís de Almeida Machado

Terça-feira, Dezembro 01, 2009

O Cérebro do Futuro


Estadão - Como a internet melhora a inteligência das pessoas?
Gary Small - Ela de certa forma cria uma extensão da memória biológica – temos um ‘HD externo’ com imensa quantidade de informações acessível a qualquer momento. Sacrificamos a profundidade pela amplitude.

Estadão - Qual é o lado positivo e negativo da internet para as crianças?
Gary Small - Os positivos são a possibilidade de se relacionar e colaborar em rede e o acesso instantâneo à informação. Os negativos incluem a o comprometimento da atenção e da dependência da tecnologia.

Estadão - Como será o cérebro no futuro?
Gary Small - Prevejo que vamos ter implantes de micro-chip no cérebro que nos ligarão a internet e a discos rígidos externos. Não vamos mais usar mouse e teclado. Vamos pensar em algo e instantaneamente isso vai acontecer.

(Entrevista de Gary Small, neurocientista e autor do livro "iBrain - Sobrevivendo à alteração tecnológica da mente moderna" ao caderno Link, do Estadão, em 30/11/09)

Tenho mencionado em palestras e oficinas sobre educação e tecnologia que os cientistas estão prevendo o implante de micro-chips nos cérebros humanos para os próximos anos (ou décadas). Já tinha ouvido falar sobre esta perspectiva e, conforme dados anteriores, a previsão era que, até 2030 estaríamos equipados com estes chips e, literalmente, turbinados com muito mais dados e informações, conforme Gary Small afirma na entrevista ao caderno Link do Estadão.

Brinco com o público presente dizendo que desde já abro mão de qualquer chip que seja destinado a minha pessoa. Passo o direito de uso a qualquer um da platéia... Estou satisfeito com o meu bom e velho HD legado por meus pais... Nestes 42 anos de uso, até o presente momento, não há reclamações, falhas graves e, por conseguinte, necessidade de devolução, troca ou pagamento de volta...

Concordo com Small quando afirma que a internet nos provê um "HD externo" poderoso e também faço uso dele. Porém não quero ser um ciber dependente, ou seja, uma pessoa que para tudo depende das tecnologias e que não viveria sem elas... Considero-as parte do cotidiano há anos, utilizo com grande frequência, considero-as válidas principalmente no plano profissional e também, em certa medida (sem erro de dosagem) interessantes para o plano pessoal, mas a afirmação final do neurocientista americano, na qual diz que "sacrificamos a profundidade pela amplitude" é o que muito me preocupa...

Vejo que o que prevalece na rede, infelizmente, é a superficialidade e a incapacidade de realizar as necessárias e fundamentais sinapses - como se estivéssemos legando esta essencial característica humana aos computadores, a rede e aos sistemas informatizados... E tenho medo de um mundo vazio, vago, sem ideologias, utopias, sonhos... Imagino um amanhã onde as pessoas estejam dispersas, perdidas, sem rumo e, em especial, desprovidas da necessária paixão, da capacidade de se relacionar com intensidade com as pessoas e o mundo ao seu redor!

Gary Small falou sobre "o comprometimento da atenção" e a "dependência da tecnologia" entre as novas gerações... E isto é fato, já está acontecendo, preocupa demais... As crianças estão dando mais espaço em suas vidas aos computadores e a rede do que a bola, a boneca, o esconde-esconde, os jogos de tabuleiro, a canetinha de colorir, os quadrinhos, a interação e a brincadeira com as outras crianças...

A TV deixou de ser a babá eletrônica e, em seu lugar surgiram outros recursos tecnológicos que são ainda mais poderosos quanto as suas possibilidades de magnetizar as crianças nas cadeiras, fazendo-as ficar por horas e horas diante de telinhas onde jogam, conversam com outras pessoas que estão distantes ou próximas (algumas vezes na casa vizinha), lêem rapidamente algumas informações (sem se aprofundar), assistem vídeos engraçados (ou não)...

É muito bacana saber que é possível conversar pela rede com pessoas que estão do outro lado do mundo ou mesmo com aquelas que estão próximas mas com as quais não podemos estar presencialmente juntos... Colaborar em rede é outra perspectiva fantástica que já está acontecendo, ou pelo menos espero que assim o seja, pois é o que acredito, por exemplo, estar fazendo através do Escolhendo a Pílula Vermelha, do Cinema de Primeira ou do Planeta Educação, como tantas outras pessoas o fazem na web através de suas colaborações em blogs, redes sociais, Twitter, YouTube...

Mas gosto ainda de pensar que nossas melhores possibilidades na web dependem de nossas ações fora dela... E o que mais me preocupa é justamente perceber que no final das contas estamos passando tanto tempo diante das telinhas, navegando pela internet, que pouco (ou menos do que deveríamos) estamos vivendo no mundo extra-virtual ou seja, nas ruas, escolas, campos, construções, como dizia Geraldo Vandré!

Por João Luís de Almeida Machado

A vida sem pára-raios


Pára-raios não é tão essencial assim, a vida as vezes nos faz crer que sim, mas temos que aprender a lidar com situações muito inusitadas e tantas são as vezes em que não temos qualquer tipo de "pára-raios", não é mesmo?

Trago a tona este tema por ter recebido e-mail de colega blogueira, responsável pelo site pessoal Foi desse jeito, no qual ela mencionava viver em uma casa que não tem pára-raios. Fiquei então pensando no significado daquilo e, em minha resposta a ela, disse as palavras que compõem o primeiro parágrafo desta postagem...

Penso que fomos tornando a vida cada vez mais rica e confortável em termos materiais, criando artefatos e utensílios que extrapolaram muito as nossas necessidades básicas e reais. Daquela imagem célebre do homem pré-histórico que joga um osso para o céu depois de ter entendido a possibilidade que o mesmo lhe legava para defender-se, caçar, catar frutos em galhos altos ou ainda outras possibilidades, que faz parte do clássico 2001 - Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, até os dias de hoje, muita coisa mudou mesmo...

Do osso para o pára-raios e outras funcionalidades não deixamos de vislumbrar, no entanto, a tal riqueza e o desejado conforto material que mencionei... O problema é que, a despeito da comodidade, creio que estes avanços em muitos casos acabaram nos tornando mais comodistas e, às vezes, até mesmo medrosos quanto as possibilidades da vida sem os tais pára-raios e demais utensílios...

Sei que são meios, recursos e ferramentas de valor... Tudo o que temos constituído de algum modo tem utilidade e facilita nossa existência... Mas, além dos receios decorrentes da perda de algum destes itens que hoje fazem parte de nossas vidas será que também não deixamos para trás a nossa capacidade de nos reinventar, de criar e de encarar as situações de modo diferenciado por não termos em mãos nenhum destes "pára-raios"?

Só para exemplificar, outro dia recebi uma mensagem em que um aluno elogiava, com toda justiça sua professora da faculdade, mencionando que ela conseguia, sem utilizar qualquer tecnologia, dar aulas excelentes. Tal mestra pode ser considerada antiquada por muita gente por não ter como "pára-raios" os computadores e a web... Mas o aluno em questão exaltava justamente isto, a incrível capacidade de concatenar idéias, explicitar fatos, elucidar conceitos, explicar teorias e, pasmem, tudo isto apenas a partir de sua experiência, leituras, textos próprios, planejamento de aula, conhecimento dos tópicos trabalhados e capacidade de comunicar-se em público!

Não estou com isto condenando as tecnologias, sou usuário e sei da importância e das possibilidades que elas nos legam, mas eu mesmo já passei em duas ocasiões por situações em que o "pára-raios" falhou e nas quais fui salvo pela capacidade de criar rapidamente respostas as dificuldades que se faziam presentes. Em ambas estava apresentando palestras e o equipamento onde apresentava meus slides (powerpoint) falharam...

Diante de públicos de diferente monta (uma vez com mais de 300 pessoas e na outra com grupo pequeno, de 40 participantes), tive que demonstrar espirituosidade, rir da situação ao mesmo tempo em que, obviamente, estava preocupado e dizer a todos que: "É, os equipamentos falham, não é mesmo, ainda bem que é o ser humano que está a frente e que deles faz uso!".

E é justamente isto que quero ressaltar, ou seja, que não nos coloquemos de lado, imaginando que sem os "pára-raios" não somos capazes de fazer as coisas, tudo aquilo para que fomos abençoados e preparados (e também para o que ainda não fomos). Se tivermos os pára-raios, ótimo, senão... Também!

Por João Luís de Almeida Machado

Segunda-feira, Novembro 30, 2009

Ética relativa: O mal do qual padecemos...


  • Lembro-me como se fosse hoje. Meu pai, professor, conversava na sala com um grande amigo. Chovia muito, de modo que não estávamos no quintal, brincando. Eu devia andar aí pelos meus 9 anos... Ouvi perfeitamente quando ele fez ao amigo a seguinte pergunta: "Você acredita, então, em honestidade relativa?" Não sei o que o amigo respondeu. Mas me lembro do que lhe foi dito logo em seguida: "Pense bem no que vai fazer. Não existe honestidade relativa. Ou você é honesto ou não é. Ou você é decente ou não é. Ou você faz o que é direito ou não faz. Essa história de "relativo" é só desculpa para contornar as leis." Quieta lá no meu canto, ouvi e jamais esqueci aquelas palavras. (Existe ética relativa? Artigo de Sandra Cavalcanti, publicado pelo Estado de São Paulo em 28/11/09)

Li no último sábado este excelente artigo de autoria de Sandra Cavalcanti, ex-deputada federal pelo Rio de Janeiro. O título "Existe ética relativa?" logo me interessou, num rápido bater de olhos e, por conta dele, me detive a imediatamente ler tudo o que ali estava escrito. Destaco no início desta reflexão o parágrafo inicial, em que vemos uma autora ainda criança, por acaso tendo aceso a conversa entre seu pai, um professor, e um amigo próximo. E as palavras do pai, quando questionado sobre a possibilidade da "honestidade relativa" são taxativas, ou seja, seu posicionamento é firme: "Não existe honestidade relativa. Ou você é honesto ou não é". Complementa ainda tal raciocínio arrematando ao final: "Esta história de 'relativo' é só desculpa para contornar as leis".

Direto. Franco. Objetivo. E o mais importante, ainda que estivesse sendo espreitado pela filha, em formação, não sabendo desta escuta paralela, falava diretamente com um amigo, alguém próximo, adulto como ele. A fala não foi proferida diretamente para a garota Sandra, como uma lição de moral, daquelas que orientam os mais novos mas que não "cabem" no mundo adulto, real, pernicioso, onde os desvios são sempre justificados de alguma maneira...

Quando o pai da ex-deputada diz que não há espaço para a relatividade no que se refere a honestidade, ampliamos o conceito e vamos direto a ética, mais abrangente, que engloba o conceito anterior e o faz presente na vida em sociedade, na relação direta com o próximo, com o outro. O comportamento ético revela-se também na intimidade, mas principalmente quando estamos com outras pessoas. Na intimidade muitas vezes as pessoas se permitem desvios de comportamento que jamais realizariam se estivessem com alguém por perto e, por isso mesmo, alguns sábios referem-se, no que concordo em grau, número e gênero, a tais ações como aquelas que realmente revelam seu caráter...

Se estando apenas com você mesmo e mais ninguém suas ações tomam outro rumo, que confiabilidade é possível se atribuir, afinal de contas nem mesmo a quem mais interessa (você) é possível ser sempre coerente com aquilo que diz pensar, que advoga publicamente, que realiza quando junto a outrem... A primeira conquista é mesmo a da coerência pessoal que lhe permite ser fiel a sua filosofia e ética de vida, em qualquer circunstância!

De qualquer modo, quando junto a coletividade (família, amigos, colegas de trabalho...), as pessoas procuram sempre apresentar seus pensamentos e, de algum modo, próximos sempre daquilo que os demais querem ou gostariam de ouvir e é, neste terreno pantanoso, que entramos na chamada "ética relativa" do início deste texto... Em muitos casos isto significa abdicar realmente daquilo que pensa em favor de palavras e posturas que sejam mais convenientes a cada momento, situação e contexto...

É possível pensar, por exemplo, que os mencionados casos de mensalão que aparecem nos jornais, demonstrando o pagamento de "benefícios" ou, popularmente "propinas" aos políticos para garantir o favorecimento de empresas em processos públicos de licitação é de algum modo aceitável? Todos dirão que isso é muito errado, apresso-me a antecipar-lhes a resposta, mas se publicamente este é o posicionamento assumido por 99,9% das pessoas que conhecemos ("toda unanimidade é burra", já dizia Nelson Rodrigues), como temos tantos e tantos casos sendo divulgados pela imprensa de corrupção em vários níveis, corporações, estados, municípios e poderes?

Isto para mencionar apenas aquilo que é divulgado, cujas provas e evidências estão surgindo (e que muitos dos acusados, numa tremenda cara de pau, ainda vem a público dizer que não representam ou provam nada das acusações) e que estão virando processos judiciais arrastados, longos, que se perdem no tempo e que, em muitos casos (senão na maioria envolvendo os poderosos) acabam não rendendo nem mesmo a menor mácula a imagem destes acusados, que tiram dinheiro do leite, das escolas, da habitação pública, dos transportes, do serviço de limpeza pública, dos hospitais e de tantos outros serviços essenciais e nem ao menos demonstram a mínima vergonha por lesar tantos e tantos brasileiros humildes...

Como disse o pai da autora do artigo publicado no Estadão, não existe espaço em nossas vidas para tal relatividade, especialmente na ética! Ou se é ético ou não. Meio termo é apenas um modo de tentar suavizar posicionamentos que na realidade nada tem de ético não... Ao ler este texto me lembrei também de declaração de Carlos Alberto Parreira, dizendo que o gol era um "mero detalhe" no futebol... Este detalhe representa a vitória ou a derrota... Na política e na vida de cada um de nós também é assim, o relativismo é o mero detalhe que pode fazer com que sejamos ou não éticos...

Obs. Para ler o artigo "Existe ética relativa?" na íntegra, vá ao portal do Estadão, no link http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091128/not_imp473515,0.php.

Por João Luís de Almeida Machado

Sexta-feira, Novembro 27, 2009

A Fundação Síndrome de Down: Histórias de Amor Verdadeiro e Profundo

“A Fundação é o resultado da luta de pais que aceitaram e amaram seus filhos, entendendo que a diversidade humana é uma realidade que a sociedade não pode negar mediante práticas discriminatórias, veladas ou explícitas. Que todos nós somos responsáveis não apenas por nossas individualidades, mas também por tudo o que se passa na sociedade”.

Somos todos imperfeitos. Não há entre nós uma única pessoa que não seja realmente especial na acepção da palavra utilizada pelos especialistas e estudiosos que se aprofundaram em pesquisas sobre as necessidades próprias dos deficientes. Verdadeiramente falando, todos somos de alguma forma, também deficientes.

Alguns escutam menos. Outros enxergam com o auxílio de próteses conhecidas como óculos ou lentes de contato. Há aqueles que falam com dificuldade. Tantos outros apresentam dificuldades para aprender. E existem alguns anjos especiais que vieram para a Terra afim de nos fazer aprender a língua do amor, aquela que mais pode nos aproximar da perfeição de Deus.

Esses anjos são crianças com deficiências mentais ou físicas que conseguem transformar a existência de seus pares nesse planeta (seus familiares, professores, médicos e amigos mais próximos) e lhes fazer vivenciar a mais profunda, verdadeira e infinita realização divina na terra, o amor desprendido, aquele que não demanda nada em troca de uma enorme dedicação, apreço e carinho.

Iniciei essa reflexão com um trecho do documento que retrata a história da Fundação Síndrome de Down (http://www.fsdown.org.br/home.htm) porque qualquer palavra que expresse minha idéia, consciência e sensibilidade acerca desse tema não consegue equiparar-se a daquelas pessoas que batalham arduamente todos os dias em prol de uma vida melhor para as pessoas que têm a Síndrome de Down ou qualquer outra necessidade especial...

Como puderam notar, eles falam de luta, amor, diversidade, tolerância e responsabilidade. Tem razão em nos convocar a participar de sua jornada de inestimável valor. Seja solidário e sensível. Lute pela inclusão e incentive a continuidade de projetos como o da Fundação Síndrome de Down. O mundo será muito melhor, pode ter certeza...

Por João Luís de Almeida Machado

Quinta-feira, Novembro 26, 2009

Flor sem espinhos...


Outro dia li que cientistas queriam criar rabanetes e brócolis com sabor de chocolate ou ainda cenoura que se parecesse com sorvete ou iogurte de morango quando fosse saboreada. O objetivo? Fazer com que as crianças comessem mais legumes e verduras, essenciais para o crescimento sadio. Não sei mais dizer se a atitude é louvável (por conta daquilo que pretende atingir, ou seja, crianças comendo mais alimentos desta natureza) ou reprovável, se levarmos em conta que isto representa alterações genéticas nestes vegetais...

Independente da questão dos transgênicos ou mesmo do lado moral da ação descrita acima, fico pensando que a meta logo vai ser criar flor sem espinhos... Estranho isso, não é mesmo, mas as pessoas cada vez mais querem viver uma existência próxima da perfeição, sem dor, ressentimentos, desentendimentos ou qualquer tipo de desavença e sofrimento...

E qual a beleza da rosa sem espinhos? Como atingir todo o seu esplendor sem que ao longo do caminho encontremos em nossas existências os momentos difíceis pelos quais temos que necessariamente passar?

Como sou professor costumo dizer que aprendemos muito quando erramos, talvez até mais do que se simplesmente memorizamos ou corporificamos um novo saber. Ao errar somos obrigados a rever nosso pensamento, a refazer nossa trilha, a reconduzir nosso raciocínio, fazendo-o andar por locais e idéias pelas quais ainda não havíamos passado antes...

Mas a humanidade parece pouco disposta a refazer caminhos... O tempo anda curto demais... E atualmente, mais do que nunca, tempo é dinheiro para a maioria das pessoas que conheço...

Isto faz com que diferenças entre amigos e irmãos, entre maridos e esposas, entre colegas de trabalho, por exemplo, sejam sempre colocadas em segundo plano, o mais importante é a produtividade e o trabalho, o lucro e o saldo do banco... Não estou com isso desmerecendo o esforço de ninguém e, tampouco, dizendo que o trabalho não é importante...

Apenas ressaltando a necessidade dos espinhos e também da rosa e de todas as flores, ou seja, da necessidade de entendermos porque tais espinhos foram ali colocados, ao longo do caule, como proteção ou pedra no caminho, que ajudam a tornar tal flor mais forte e resistente as intempéries da vida, preservando-a e permitindo que sua beleza e fragrância sejam sentidos por mais e mais pessoas e por período de tempo mais longo...

Que sejamos capazes de entender que o amargor dos remédios, as pedras no caminho e os espinhos das flores é que tornam a nossa jornada por esta existência mais digna, bela e valiosa!

Por João Luís de Almeida Machado

Terça-feira, Novembro 24, 2009

Sobre o direito de não fazer tarefa...

Li no dia de hoje (24/11/09) uma notícia que vem do Canadá e que relata a briga de um casal com a escola dos filhos pelo direito de isentá-los do compromisso e responsabilidade de fazer tarefas escolares. Os pais são advogados e alegam que após exaustiva carga de trabalho educacional no âmbito escolar, ao chegar em casa seus filhos tinham sobrecarga de trabalho ao ter que realizar longas séries de exercícios de disciplinas como matemática, história, inglês, ciências...

Trata-se, certamente, de questão das mais polêmicas. Há defensores do ponto de vista dos pais que se justificam dizendo haver não apenas sobrecarga de trabalho educacional com as tarefas como a compreensão por parte dos alunos quanto as tarefas sendo castigo ou punição e, desta forma, realizadas sem comprometimento algum, apenas pela obrigatoriedade... Isto resultaria em ganho para estes alunos ou seria apenas tempo perdido? Trabalhar, literalmente, com "uma faca no pescoço" não parece agradável aos olhos de ninguém, não é mesmo? Pois esta é, basicamente, uma das leituras realizadas quanto a esta temática polêmica.

Aqueles que defendem os pais destes alunos do Canadá pensam ainda que com o excesso de atribuições educacionais queimam-se possibilidades de viver cada etapa de maturação e desenvolvimento sócio-psicológico da forma como deveriam ser vividas. Não há tempo, por exemplo, para ser criança e brincar com tantos compromissos vindos da escola, aos quais se adicionam, por exemplo, atividades extra-escolares como aprendizagem de línguas estrangeiras, prática de esporte, escola de informática...

É claro que isto levará os detratores deste posicionamento a dizer que os pais deveriam então não sobrecarregar seus filhos com estas outras responsabilidades...

Aqueles que defendem a necessidade das tarefas, entre os quais muitos professores, definem-se desta forma levando em conta a necessidade de fixar e consolidar conhecimentos e saberes trabalhados em sala de aula, o que acabaria ficando mais difícil sem que existisse a famosa lição de casa. Somente as ações realizadas na escola seriam, de seu ponto de vista, insuficientes para que as informações e dados trabalhados em classe se tornassem conhecimento entre seus alunos...

Os que se posicionam no front contrário irão dizer que mesmo com as tarefas não há garantias quanto a transformação de dados e informações trabalhadas em aula em conhecimento apenas pela atribuição de exercícios para casa relacionados aos mesmos...

Minha opinião? Creio que há por parte dos estudantes resistência as tarefas, em especial levando-se em conta que suas vidas hoje estão muito corridas, como afirmam aqueles que defendem a ação dos canadenses. Mas não acredito que somente esta medida irá diminuir o stress e o alto grau de ansiedade que atinge nossas crianças e adolescentes. Nem tampouco imagino que a escola possa abrir mão das lições de casa, apenas que deve programar-se e planejar-se para que não ocorram excessos quanto a estas tarefas.

Além disto, é de suma importância que as tarefas não sejam apenas reprodutivistas, ou seja, que se prestem somente a pedir aos estudantes que demonstrem ter memorizado conteúdos, fórmulas e saberes apresentados por seus professores em sala de aula, pois desta maneira tornam-se verdadeiramente massacrantes, desconfortáveis e nada úteis para a real efetivação do processo ensino-aprendizagem... As tarefas precisam ser estimulantes, desafiadoras e capazes de mobilizar os alunos na busca de informações, dados, leituras, filmes, jornais, músicas e tantos outros recursos para que, desta forma, se consolide de vez não apenas os saberes da sala de aula, mas que se vá além dos mesmos...

O brado não deve ser no sentido de se criar a possibilidade de não fazer lições de casa e sim, no sentido de buscar tarefas instigantes que promovam os saberes utilizando-se de recursos adicionais ao trabalho desenvolvido em sala de aula pelos professores, levando os alunos a navegar pela web, ler outros materiais, utilizarem trechos de filmes, aprenderem com a poesia ou o teatro... Desta maneira estaremos estimulando sua curiosidade, criatividade, possibilidade de voar, muito além do horizonte inicialmente previsto na escola, rumo ao conhecimento que seja para eles muito mais significativo!

Obs. Para ler a matéria sobre o caso canadense, na íntegra (em ingles) acesse o link http://www.theglobeandmail.com/life/family-and-relationships/family-negotiates-homework-ban/article1367357/

Por João Luís de Almeida Machado

Portfólios Educacionais na Era Digital

Portfólios são documentos através dos quais as pessoas e/ou empresas organizam e categorizam suas ações com o objetivo de criar registros que permitam-lhes entender o seu desenvolvimento, suas práticas, erros e acertos, possibilidades de melhoria, trabalho cotidiano, bases de ação, identificação de sua(s) equipe(s)... Compõem-se basicamente de documentos escritos, vídeos, fotos, imagens de variadas naturezas; Entre os escritos é possível contabilizar formatos como descrições, narrativas, diálogos reproduzidos, depoimentos, sínteses, apreciações de pessoas da empresa, ponderações de indivíduos de fora da instituição...

Independentemente de qualquer definição, este tipo de documento têm sido utilizado de forma regular também na educação, como recurso que permite avaliar o desenvolvimento dos trabalhos na área - pensando-se desde a ação de professores, estudantes, gestores, unidades escolares e até mesmo redes educacionais. O que se pretende não é estipular se fulano, sicrano ou beltrano são melhores ou piores, sejam eles os artífices do processo de ensino-aprendizagem (educadores) ou beneficiários desta ação, no caso, os estudantes (mais diretamente) ou seus pais e a comunidade como um todo.

O advento das novas tecnologias de informação e comunicação (as TICs), neste sentido, pode muito colaborar para que o trabalho com portfólios passe por um processo de reestruturação e reengenharia que são bastante benéficos a seus usuários, entre os quais os profissionais que atuam em educação - seja na sala de aula, na gestão ou mesmo prestando serviços através de empresas especializadas.

A criação de bases de dados que permitam a inclusão rápida, o acesso instantâneo, a possibilidade de ler ou incluir registros até mesmo a partir de celulares ou computadores que não sejam os nossos próprios, a chance de revisar e corrigir dados já inseridos, o espaço para compartilhamento de idéias, a disponibilização de área de franco debate (os comentários), a definição de bases de registro (como, por exemplo, ao se estipular as palavras-chave ou tags como elementos de localização dos registros - exatamente como faz a comunidade científica) e mesmo a oportunidade de inserir vídeos, fotos e imagens de diferentes naturezas explicam como tal versão eletrônica dos portfólios, os chamados webfólios, pode ser muito útil.

Por João Luís de Almeida Machado

Segunda-feira, Novembro 23, 2009

Sustentabilidade: Viva esta idéia!

  • “O atual padrão de produção e consumo é injusto e insustentável. Para satisfazer as necessidades de água, materiais e energia dos mais de seis bilhões de pessoas que hoje vivem na Terra, consumimos 20% mais do que o planeta pode oferecer”.
A afirmação acima consta do projeto Sou + Nós, do Instituto Akatu, que tem como objetivo a conscientização da população quanto a necessidade de racionalizarmos e corrigirmos os nossos hábitos de consumo. Não deveriam ser necessários outros argumentos para corroborar tal tese e iniciativa por parte do projeto desenvolvido pelo Akatu.

É notável, entretanto, que a aprendizagem humana é muito mais lenta do que se especula ou imagina. Diferentemente daquilo que já puderam constatar estudiosos da área de educação, que teimosamente continuam afirmando que os seres humanos são inteligentes e que a partir de suas habilidades são capazes de realizar maravilhosas intervenções no mundo, a ação predatória contra o meio-ambiente parece nos destinar a um fim comum, a destruição dos ecossistemas e o conseqüente desaparecimento de qualquer rastro de vida na Terra, inclusive a própria humanidade.

Temos que perceber que a nossa casa é o planeta inteiro e que qualquer destruição ocorrida em nossos países, estados ou cidades afeta a vida de pessoas que vivem aqui e em muitas outras localidades. Enquanto nos preocupamos em cultivar belos jardins em nossas residências, pouco ou nada fazemos pelas florestas. Ao mesmo tempo em que aumentamos os gastos com nossos animais de estimação não estamos nem aí com o que ocorre com espécies em extinção.

Gastamos papel demais, jogamos água fora, nosso lixo não é reciclado, poluímos o ar com o uso excessivo de automóveis, resíduos tóxicos como pilhas e baterias acumulam-se e podem contaminar o solo e os lençóis freáticos,...

É nesse aparentemente restrito domínio que podemos e devemos fazer a diferença de forma decisiva. Ao controlarmos o uso de recursos que estão em nosso cotidiano podemos ajudar a diminuir muito o desperdício. O consumo consciente é uma fundamental e necessária prática no caminho das sociedades sustentáveis e não podemos mais perder tempo quanto a isso.

Temos que obrigatoriamente fazer nossa parte para, literalmente, salvar o planeta!

Por João Luís de Almeida Machado

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

O que são Redes Sociais na Internet?

Redes Sociais são grupamentos de pessoas, reunidas a partir de interesses comuns, existentes desde tempos imemoriais que de forma constante, programada ou não, realizam encontros nos quais relatam fatos e acontecimentos, trocam idéias, participam problemas, criam soluções e, principalmente, interagem, movidos sempre pelos pontos comuns que os unem.

O conceito passa, a partir do advento das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) e da criação de plataformas diversas, como blogs, microblogs, comunidades on-line, bancos de dados diversos (de vídeos, fotos), comunicadores instantâneos e outras funcionalidades, por uma revisão e necessária atualização. Neste sentido, por exemplo, os grupamentos tornam-se livres das amarras do tempo e do espaço – podendo reunir pessoas que moram em diferentes espaços (próximos ou distantes).

Outra característica marcante refere-se ao fato de que as pessoas reunidas muitas vezes não se conhecem no mundo real, aproximando-se por interesses comuns através da internet e das plataformas mencionadas. Entre as redes sociais on-line mais conhecidas estão Flickr, Facebook, Twitter, YouTube, Orkut, MySpace, MSN, Skype e os blogs (cujos principais e mais conhecidos instrumentos de construção são o Blogger e o Wordpress).

Por João Luís de Almeida Machado

MyLifeBits e Total Recall: Nosso futuro digitalizado...

  • Revista Veja - Participar de um projeto como o MyLifeBits mudou a vida do senhor?
  • Gordon Bell - Eu me tornei portátil. Estou livre de pilhas e pilhas de papéis. Toda a minha vida está arquivada num disco rígido. Ela ocupa 260 gigabytes. Posso, por exemplo, trabalhar em qualquer lugar do mundo, contanto que esteja com meu computador por perto. Ter tudo digitalizado também me deixa bastante seguro. Em certo sentido, tenho uma sensação de imortalidade. Aliás, no futuro, nossas memórias digitais poderão ser transformadas em avatares. Eles conversarão com nossos descendentes. Uma das consequências da memória total é que deixaremos uma história incrivelmente mais rica para a posteridade. (Depoimento de Gordon Bell, cientista americano, responsável em parceria com Jim Gemmell, pelo projeto MyLifeBits, da Microsoft Research, e co-autor do livro Total Recall - Memória Total)

O entusiasmo de Bell, aos 75 anos, com as possibilidades legadas pelas novas tecnologias é contagiante. A leitura destas linhas e de toda a entrevista feita com ele e com seu parceiro de pesquisa, Jim Gemmell, traça as linhas daquilo que se prenuncia não como um futuro distante, mas como algo que já está acontecendo e que irá ser ampliado para toda a humanidade como possibilidade real de serviços.

Mas olhemos com atenção alguns trechos de seu depoimento contidos na pergunta acima destacada...

Ao afirmar que se tornou "portátil", há uma vinculação direta e aparentemente total entre homem e máquina, como se fôssemos um ser composto e, de certa forma, indissolúvel, a partir de agora, pois na continuação de sua fala, Bell menciona que esta condição (portátil) está vinculada a posse de seu computador, fiel escudeiro, sempre por perto... É claro que isto é um exagero, ainda mais em se tratando de um cientista de ponta, responsável por um projeto bancado pela Microsoft, mas por trás desta colocação, é possível prever (até mesmo com base no que já vemos em nosso cotidiano), como realmente estamos ficando techaddicts (não sei se a expressão existe, mas seria uma espécie de "viciados em computador", traçando um paralelo com drugaddicts, viciados em drogas).

Ao dar números a sua vida, estipulando que ela hoje representa 260 gigabytes, com base em todos os registros feitos por ele dentro da pesquisa MyLifeBits, através da qual sua vida está sendo constantemente filmada e gravada em bits, além de todos os demais registros possíveis (fotos, escritos, falas...), Bell realiza o sonho da ciência, de metrificar, quantificar e, eventualmente, pesar, avaliar e ponderar o próprio ser humano...

Com tantas câmeras e recursos digitais ao nosso redor, ainda que a partir de certo momento de nossas vidas venhamos a esquecer todo este monitoramento, que garantia temos quanto a nossa privacidade e espontaneidade? Quanto a isto, em outro momento da entrevista, Bell afirma que pode ser benéfico pois nos fará sempre escolher os melhores e mais éticos caminhos quanto ao que fazemos de nossas vidas... Errar deixa então de ser uma possibilidade? Que futuro estamos legando as novas gerações se as atrelamos a sistemas que não lhes permitirão sequer cometer falhas?

A questão da aparente "imortalidade" remonta também a sonhos e ideais da ciência desde tempos imemoriais. Indo um pouco além, com tanto registro, dados abundantes, informações a bel prazer, que esforço real nossa mente, o maior de todos os supercomputadores como já tive a oportunidade de registrar neste espaço virtual, terá que fazer? Que estímulos quanto a memória e ao desenvolvimento do raciocínio e da criatividade existirão para os seres humanos a partir de agora?

E outra, todos seremos então imortais a partir do registro de nossas existências, o que me parece bastante belo e democrático... No entanto, vale refletir sobre se queremos isto e ainda, que valor real existirá para a humanidade o conhecimento de todas estas experiências individuais...

Escrevendo estas linhas concluo que a ficção está morrendo e sendo substituída pela realidade ou, melhor dizendo, pela virtualidade... Me lembrei de filmes como Substitutos, 1984, Matrix, Admirável Mundo Novo e Violação de Privacidade (The Final Cut, 2004)... Neste último, com chips implantados em nossos cérebros, o registro de tudo aquilo que ocorre em nossas vidas é armazenado automaticamente em computadores "linkados" a este chip, reproduzindo a idéia do projeto MyLifeBits e do livro Total Recall (cujo título também remonta a ficção científica, pois há um filme estrelado por Arnold Schwarzenneger, baseado em obra de Phillip K. Dick, de mesmo nome).

O futuro é promissor? Ou assustador? O que nos reserva o amanhã?

Por João Luís de Almeida Machado

Quarta-feira, Novembro 18, 2009

Como aprendi e como ensino?

Aprendi lendo, observando, trocando ideias, escrevendo sempre sobre o que vivenciara ou estudara, questionando, sabendo ouvir e se pronunciar, utilizando com parcimônia o tempo, definindo as bases necessárias para compor minhas reflexões, me apoiando em autores, mas tendo também autonomia para entender-me como sujeito ativo e construtor de meus saberes. Como professor, o que tenho tentado fazer é emancipar, permitir voos não apenas panorâmicos pela vida, mas sim viagens através das quais os estudantes se sintam preparados para intervir, opinar, participar, contribuir, promover um mundo melhor... Pensar para causar e demonstrar altivez, capacidade de solucionar problemas e de se relacionar, da forma mais integrada (e sempre com ousadia), com o mundo...

Por João Luís de Almeida Machado

Terça-feira, Novembro 17, 2009

Jean Piaget e as metas da educação

  • "A principal meta da educação é criar homens que sejam capazes de fazer coisas novas, não simplesmente repetir o que outras gerações já fizeram. Homens que sejam criadores, inventores, descobridores. A segunda meta da educação é formar mentes que estejam em condições de criticar, verificar e não aceitar tudo que a elas se propõe." (Jean Piaget)

Piaget certamente estava além de seu tempo. A frase por ele concebida encerra aquilo que é o ideal, o sonho, a utopia. Neste sopro de sabedoria e simplicidade, estipula aquilo que deveria ser a meta perseguida arduamente em todas as escolas, por professores e alunos. Ao definir que a inventividade e a criatividade constituem o maior de todos os benefícios a serem oferecidos e trabalhados nas escolas, Piaget desafia a lógica que perdurava (e que, infelizmente ainda perdura), através da qual a educação se realiza como reprodutivista, conteudista...

Como os matemáticos penso que "a ordem dos fatores não altera o produto", ou seja, não creio ser possível estipular uma ordem de preferência ou necessidade entre a capacidade criativa e o olhar crítico. O pacote completo, ou mais modernamente, o "combo" (expressão comercial criada por redes de lanchonetes e que é usada de forma corrente principalmente pela nova geração) deve incluir ao mesmo tempo tanto uma quanto outra competência.

Agora, é certo que a escola atual, com raras e pontuais exceções, tradicionalista e arraigada ao conteudismo, não tem mesmo condições de oferecer os subsídios necessários para que os estudantes criem asas, voem e transformem o mundo ao seu redor. O que já escuto nos corredores e salas de aula é que criatividade e inventividade não são parte do currículo e que a grade já é bastante grande e cheia de informações a serem trabalhadas, "passadas" para os alunos.

Enquanto não superarmos a lagarta, ou as limitações do sistema que tornam os professores apenas "dadores de aula" (tomando a expressão emprestada de mestre Rubem Alves), nos libertando das cascas que impedem o surgimento da borboleta, com asas e plena capacidade de vôo, continuaremos rastejando e não nos tornaremos educadores...

Como esperar que os alunos sejam criativos e mesmo críticos se nem ao menos seus tutores conseguem atingir esta tão almejada condição?

E ser crítico e participativo, criativo e inventivo para quê?

Piaget é bastante claro no pensamento que abre esta reflexão... Criativos para que possamos fazer aquilo que ainda não foi feito e, indo um pouco além de sua extraordinária capacidade de síntese e simplificação, extrapolo na direção não apenas da ciência e toda a tecnologia e recursos por ela criados continuamente, mas no rumo da justiça social, da dignidade, da defesa do meio-ambiente, do combate e extinção da fome, da luta contra qualquer preconceito e discriminação...

Críticos para que aprendamos com o que a história nos traz através de suas páginas, tanto aquelas marcadas pelo triunfo quanto pela mais vexatória e humilhante derrota... Para que com nossa capacidade crítica aguçada possamos julgar, repensar e encontrar fórmulas e alternativas melhores para o amanhã coletivo, que inclui não apenas todos os seres humanos, mas todas as espécies que existem no planeta e, assim sendo, a própria nave-mãe, Terra...

Por João Luís de Almeida Machado

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Não quero ser virtual...



HOBBY
Criar um ser artificial tem sido o sonho da humanidade desde o nascimento da ciência. Não apenas o começo da época moderna, quando nossos ancestrais surpreenderam o mundo com as primeiras máquinas pensantes: monstros primitivos que podiam jogar xadrez. Como chegamos longe. O ser artificial é uma realidade de simulacro perfeito, com membros articulados, fala articulada, e sem deixar de responder como seres humanos...

SHEILA
Ahhh!!

HOBBY
... e até mesmo respondem por memória como se tivessem dor. Como isso a fez sentir-se? Nervosa? Chocada?

SHEILA
Eu não entendo.

HOBBY
O que eu fiz para os seus sentimentos?

SHEILA
Você fez para a minha mão.

HOBBY
Vejam. Aí está o problema. Não há direcionamento. Na Cybertronics de New Jersey, o ser artificial atingiu sua forma mais aperfeiçoada. Os Mecas são adotados universalmente, base para centenas de modelos, servindo a humanidade na correria e na multiplicidade de seus compromissos diários. Isso é um grande avanço. Mas nós não temos razões para nos congratularmos. Nós estamos, certamente, orgulhosos do que fizemos, mas aonde isso nos leva? Sheila, abra.

Um brinquedo sensorial, com circuitos inteligentes de comportamento, usando seqüências tecnológicas de neurônios tão velhas quanto eu. Eu acredito que o meu trabalho no mapeamento de padrões em um único neurônio podem nos ajudar a construir um Meca de diferenciada qualidade. Eu proponho que nós elaboremos um robô que pode amar...

(Trecho do roteiro original do filme “A.I. – Inteligência Artificial”, dirigido por Steven Spielberg e escrito por Ian Watson e Brian Aldiss).


A ficção científica tem tentado nos alertar desde o final do século XIX e, principalmente, a partir da produção de seus grandes autores do século XX, quanto aos limites da ciência e da tecnologia. Limites que pensamos hoje, envolvidos por um turbilhão de descobertas que a cada novo dia transformam mais e mais nossas existências, não existirem.

E estamos tão envolvidos com os avanços da ciência e o surgimento de equipamentos e máquinas tão fabulosos que nos esquecemos de viver. Na verdade estamos tentando reinventar a vida a partir das próteses eletrônicas, mecânicas, biotecnológicas e virtuais e deixando de lado a existência que realmente importa, aquela do mundo real, físico, composto a partir de nossas ações, idéias, realizações, práticas e relações...

Ao resgatar o trecho inicial do roteiro do filme “A.I. – Inteligência Artificial”, dirigido por Steven Spielberg, o que nos chama atenção é que o que ali se propõe é o surgimento não apenas de uma nova forma de produção de conhecimento a partir de uma mente artificialmente composta, mas sobretudo a pretensão de legar a esses mecanismos a compreensão e a possibilidade de vivenciar os sentimentos...

Isso já havia sido trabalhado com relativa maestria em “Blade Runner – O Caçador de Andróides”, de Ridley Scott. A implantação de memórias íntimas, que realçam os laços afetivos entre pais e filhos, irmãos, amigos, amantes ou mesmo inimigos seriam passíveis de aplicação em HDs computadorizadas e dariam aos replicantes (ou andróides, como mais comumente os chamamos) a possibilidade de humanização.

A transposição de características genéticas, a partir da pesquisa aprofundada do DNA humano, também seria utilizada para a composição de recursos eletrônicos que reproduziriam entre os mecas, replicantes, andróides ou robôs a reprodução do amor, do ódio, da paixão, da amizade sincera, da indiferença, da dor, do choro,...

O problema é que além de estarmos brincando de Deuses nessa inglória jornada pela criação da inteligência artificial também temos uma contrapartida que já se faz presente de forma assustadora no mundo em que vivemos... Ao mesmo tempo em que tentamos criar essa vida (e que nos esquecemos das que realmente temos) estamos presenciando a tentativa do homem de se tornar virtual em tempo integral... É, é isso mesmo. Há pessoas que estão assumindo outras vidas e gastando mais tempo com elas através da Web do que gastam com o pouco tempo que dispõe para experimentar o mundo real. Já ouvi pessoas afirmarem que não há mais qualquer distinção entre o real e o virtual... E não eram pessoas desinformadas, pelo contrário, eram estudiosos desse fenômeno tecnológico que estamos vivendo...

Não dá para amar pela Internet, fazer amigos sem compartilhar a presença, conhecer lugares apenas pela tela do computador, aprender a cozinhar sem estar numa cozinha e manipular os alimentos, perceber odores e cores sem vislumbrar os padrões do mundo natural, sentir dor ou felicidade sem que a presença de outros seres humanos compartilhe isso conosco,... Não quero ser virtual. Sou real. De carne e osso. Meus sentimentos derivam da minha existência em um país, um estado, uma cidade. Minhas relações pessoais e profissionais se constituíram a partir de intercâmbios com pessoas que, como eu, têm um coração batendo de forma ritmada em seus peitos... Ciência e tecnologia são ferramentas apenas. Não as torne a sua razão de viver. O que realmente faz a vida valer a pena é o sol que está brilhando lá fora, o vento que nos alisa o rosto sem que o vejamos, o abraço apertado da pessoa amada, um delicioso prato de comida preparado por sua mãe,... Para que reinventar a vida?

Por João Luís de Almeida Machado

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

Como combater o Bullying?


Combater o Bullying utilizando de expedientes punitivos se assemelha a idéia de salvar alguém que está se afogando jogando mais água em sua cabeça... É claro que isto não quer dizer que a impunidade deve prevalecer! O que quero dizer é que, ao contrário da caça as bruxas (e aos bruxos também), compete a escola e aos educadores tornar o trabalho educacional muito mais interessante, enriquecedor, desafiador e, mesmo, trabalhoso para os alunos...

Isto infere utilizar todos os recursos disponíveis, transformar o aluno de passivo em ativo nas salas de aula, expandindo o horizonte das escolas e fazendo com que as mesmas estejam conectadas com o mundo real e também com o virtual...

O aluno de hoje é influenciado por diferentes fontes, a saber, desde a televisão e a internet até as ruas e todos os seus elementos, do padre (ou pastor) aos colegas do clube, dos amigos da escola aos marginais do bairro... Neste sentido a educação tem que se mostrar mais forte, presente, capaz de despertar a atenção e canalizar a energia disponível nestes estudantes...

Se a energia está ociosa, se a mente está sendo pouco requisitada, se a capacidade criativa é dormente, é muito provável o uso da força e da brutalidade para a imposição individual perante os grupos em que se inserem os alunos, por isto (também) é que crescem os casos de bullying...

O desafio destes alunos não deve ser aquele imposto pelas ruas ou pelos meios de comunicação de massa, mas sim o que a escola (em parceria com a família e o poder público) lhe proporcionar com a cultura, a educação, o conhecimento, o esporte, a solidariedade, a cidadania, a ética, a arte...

Por João Luís de Almeida Machado

Vencedores e Vencidos: O Veredito da História

“Heróico” ou “belo” são conceitos subjetivos criados pelos homens que escrevem a história para as gerações posteriores e que descrevem o modo como os vencedores contam sua saga, sua epopéia. Não há para os perdedores o necessário espaço para a manifestação de sua dor, do sangue derramado, da ideologia destruída senão a partir das palavras criadas por seus oponentes. Neste sentido, surge a exaltação e também a idolatria daqueles que triunfaram e o ostracismo, o esquecimento, em relação aos que foram derrotados. Não há real beleza e heroísmo no horror da guerra, daqueles que morreram e foram enterrados em valas coletivas, das ideias sufocadas que se tornam malditas aos olhos dos vencedores. E a história, enquanto produção humana, retrata apenas aquilo que somos e queremos sempre ser, ou seja, detentores de uma verdade que é apenas fragmentada e parcial...

Por João Luís de Almeida Machado

Escravos da Produtividade

A vida que levamos está nos matando. Corremos riscos no trânsito. Deixamos os nossos corações a ponto de explodir a qualquer momento. Não nos preocupamos mais com as outras pessoas, apenas com as obrigações e compromissos. Não curtimos nem mesmo os doces prazeres da vida, aqueles que tanto prezamos, como por exemplo: Assistir a um bom filme, escutar música com tranqüilidade ou mesmo deitar numa rede e ler um livro agradável e interessante. Viramos escravos de uma produtividade que tem que ser cada vez maior...

Percebo isso em vários espaços, especialmente em locais de trabalho. Em inúmeras oportunidades todos parecem tão absorvidos pelo que estão fazendo que nem se dão conta dos demais. As telas dos computadores estão a nos direcionar com tal força os olhares e as energias, que não há, sequer, tempo para os cordiais cumprimentos. Com tantos afazeres, nem podemos pensar, refletir, aprofundar o nosso modo de ver as coisas, de entender o mundo...

Nem mesmo a velocidade que nos traga a cada momento é motivo de pensamento, o que nos leva cada vez mais para o olho do furacão. A malemolência do baiano faz-se necessária, o ócio produtivo dos gregos antigos é uma fórmula que não pode ser esquecida jamais...

Não quero chegar ao fim dos meus dias com a impressão de que vivi apenas para bater cartão, cumprir horários, fazer relatórios ou corrigir provas. As estatísticas e o trabalho são partes importantes de nossas vidas, mas estamos nos esquecendo do que realmente é primordial, ou seja, a relação que criamos com o mundo ao nosso redor e que pode nos levar a felicidade ou a melancolia, ao êxtase ou ao fracasso, as vitórias ou as fragorosas derrotas...

E onde estão as vitórias e as derrotas? Na forma como lidamos com as pessoas, dando ou não a cada uma delas o devido respeito, companheirismo, amizade, risos, atenção, palavras,... Apesar de estar rodeado de pessoas, às vezes percebo que muitos se sentem tão sós e percebo com clareza as mensagens do filme "Crash", que alardeiam a idéia de que estamos apenas esbarrando um nos outros, sem realmente nos perceber, sem nos fazer sentir, sem realmente viver como deveríamos...

Por João Luís de Almeida Machado

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

Blecaute: Próximos Capítulos...

O Brasil viveu na noite de ontem (10/11/09) e madrugada de hoje (11/11/09) um blecaute por conta de problemas a partir da estação hidrelétrica de Itaipu. Este incidente atingiu 8 estados e deixou às escuras centenas de cidades, em especial no Sudeste do país, tendo atingido as duas maiores cidades brasileiras, São Paulo e Rio de Janeiro. Mais do que o fato, vale considerar algumas questões:

- O blecaute é resultado de falhas do sistema e atingiu não apenas 20% do país, mas também 87% do Paraguai, parceiro do Brasil na geração de energia a partir de Itaipu. É importante, no entanto, lembrar que o crescimento do país, com a criação de novos postos de emprego, empresas instaladas e consumo interno podem igualmente estar ocasionando um aumento na demanda por energia.

- O aumento da demanda, ocasionado a partir do setor produtivo e doméstico, se dá com a colocação em funcionamento de mais equipamentos (máquinas, computadores e sistemas operacionais nas empresas; eletrodomésticos e eletrônicos em geral em domicílios).

- Não houve a necessária expansão da capacidade elétrica do país para acomodar o crescimento da demanda. A infra-estrutura nacional não contou com os necessários investimentos para cobrir as necessidades da população e das empresas aqui instaladas e em expansão ou ainda das que vieram a se instalar, consequentemente, é possível pensar que novas situações como o apagão de ontem possam ocorrer novamente.

- O apagão vivido na rede de energia elétrica é apenas uma das possibilidades no horizonte do país, há ainda outros blecautes possíveis, a saber:
  • O trânsito das grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, pode entrar em colapso também. Somente na capital paulista a frota estimada é de mais de 6,5 milhões de automóveis. É preciso pensar e aplicar políticas públicas que estimulem cada vez mais o uso de transporte coletivo, melhorando sua qualidade e aumentando a disponibilidade de veículos (trens, metrô, ônibus...) e, também colocar em aplicação medidas pouco populares como a cobrança de pedágio urbano nos centros expandidos e a ampliação dos dias de rodízio... Infelizmente!
  • O crescimento dos negócios e da capacidade de consumo igualmente demanda investimentos e expansão das possibilidades do setor aéreo nacional e das malhas viárias, as grandes rodovias que cortam o país. No primeiro caso, há ainda falhas no sistema, apesar dos esforços visíveis da ANAC e da melhoria que permitiu o retorno a normalidade aparente nos aeroportos brasileiros. A temporada de férias, com um fluxo ainda maior de passageiros promete grandes dificuldades e muita dor de cabeça para um grande contigente de viajantes aéreos. Quem utiliza estradas tem visto a proliferação dos pedágios em algumas rodovias, em especial no estado de São Paulo, a melhoria das vias operadas por estas concessionárias, mas ainda gostaria de ver, em muitas estradas secundárias, a ampliação das pistas e dos serviços e dispositivos de segurança...
  • O país, em ascensão no cenário internacional, tem recebido investimentos e recebeu o reconhecimento externo quanto ao grau de segurança para que este dinheiro chegue e seja utilizado por aqui. Oportunidades de trabalho especializado estão surgindo na esteira da entrada deste capital e das empresas que estão vindo ou ampliando seus serviços no Brasil. O mais grave blecaute pelo qual podemos e, se continuarmos no ritmo que estamos, iremos passar, é a falta de mão de obra qualificada para atender a demanda das empresas e da expansão econômica prevista para o Brasil... Nossa mão de obra apresenta deficiências não apenas quanto a quantidade de pessoas disponíveis no mercado para atender as necessidades crescentes, mas também entre aqueles que estão disponíveis, é perceptível ainda restrições quanto aos saberes e possibilidades técnicas, ou seja, é imprescindível melhorar a formação tanto nas escolas técnicas quanto nas universidades e faculdades brasileiras... O país terá que, por exemplo, ampliar enormemente a quantidade de pessoas que atendem em áreas vitais como o Turismo, a indústria petroquímica, o setor automotivo, a área de tecnologia, os serviços, o comércio... E nem mesmo o inglês, língua básica para esta ampliação, é moeda corrente para oferecermos...
Por João Luís de Almeida Machado

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

A escola é um lugar sagrado!

  • "A educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda". (Paulo Freire)

Escutei no último final de semana de um amigo a frase que dá título a esta reflexão. Achei belíssima. Encerra em poucas palavras aquilo em que acredito e que, certamente, deveria ser como verdadeiro mantra para todas as pessoas, especialmente para os educadores. Certamente vale registrar que este amigo e sua esposa disseram tal frase dentro de um contexto muito específico, mas que tal afirmação foi feita no sentido de reiterar que para eles a educação tem um enorme potencial e poder no que tange a vida de seus filhos e, ampliando o conceito, chegamos aos dizeres de mestre Paulo Freire, que abrem este texto, e que ressaltam o quão indispensável é a educação para toda a sociedade.

Dizem que no Japão, de cultura milenar, tradições arraigadas e, ainda assim, moderníssimo e vanguarda no mundo contemporâneo, ainda que tenha passado por uma verdadeira hecatombe em virtude da 2ª Guerra Mundial, o imperador somente abaixa sua cabeça em sinal de respeito e veneração aos pais e a seus professores. Talvez a partir deste exemplo consigamos perceber os motivos que levam os japoneses a estar tão adiantados e viverem de forma harmônica como poucos povos conseguem. A escola para eles é, certamente, um lugar sagrado!

Na Coréia, Finlândia e Chile, modernos exemplos de como a educação deve ser conduzida no mundo atual, percebeu-se desde os anos 1970 (Coréia) e 1980 (Finlândia e Chile), que o caminho para o desenvolvimento econômico, a melhor qualidade de vida, maior participação política e valorização da cultura passam necessariamente pela sala de aula. Neste sentido não apenas reiteram a idéia de que o espaço educacional é sagrado (pois gera vida, promove bem-estar, estipula as bases para o crescimento...) como, igualmente, fazem valer a máxima de Freire, ou seja, concluem que a educação qualificada pode mudar, se acompanhada de outras ações (políticas, sociais, econômicas e culturais), o mundo em que vivemos!

Não que com estas afirmações estejamos vislumbrando uma escola percebida e vivida como um templo religioso... Não é isto! Professores não são missionários, são profissionais e, como tal, merecem respeito, valorização, consideração social e, por certo, devem sempre dar o máximo de si para atingir o objetivo maior do trabalho educacional, a melhor e mais plena formação para seus alunos (todos eles!). Formação esta que não deve se restringir aos conteúdos - certamente muito importantes - mas a valores, capacidade de relacionar-se com o mundo, ética, cidadania, empreendedorismo, criatividade...

Os quatro pilares educacionais, defendidos mundialmente pela ONU (Organização das Nações Unidas), preconizam que a educação deve permitir aos estudantes, ao final de sua jornada por diferentes níveis, atingir quatro objetivos fundamentais: Aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a relacionar-se (viver com os outros) e aprender a ser. A síntese desta concepção simples e enriquecedora de Jacques Delors nos dá, com certeza, o rumo previsto por Paulo Freire ao longo de toda a sua obra e que, singelamente, resumi nesta pensata a partir de uma frase igualmente objetiva e poderosa.

Ao estabelecer que as metas da educação devem ser estas, a ONU torna claro que a escola tem um papel decisivo para a vida de todas as pessoas ao definir para cada uma delas os meios, saberes e recursos pensados ao longo de toda a jornada humana na Terra para que sejam capazes de respeitar o próximo, entender e agir no sentido de produzir e realizar um mundo em que consigam viver de forma digna e, acima de tudo, entender a si próprios e, a partir desta compreensão, empreender todas as demais em seu próprio benefício e de toda a coletividade humana no planeta.

Se isto não é suficiente para perceber como a escola é verdadeiramente um lugar sagrado, não saberei encontrar outras palavras e pensamentos que traduzam tão bem esta máxima, este mantra...

Por João Luís de Almeida Machado