Segunda-feira, Março 08, 2010

Marcos e Robinho: Lições dos gramados


Começo este texto esclarecendo, de antemão, que não sou palmeirense e nem, tampouco, santista. Trago através destas linhas impressões obtidas a partir de recentes depoimentos dados por Marcos, goleiro do Palmeiras, pentacampeão mundial de futebol com a Seleção Brasileira em 2002, e por Robinho, atualmente no Santos, clube que o lançou e que, certamente consta da lista de nomes que Dunga, treinador da atual Seleção, pretende levar para a Copa na África do Sul.

O tema, a princípio, pode parecer futebol, como tudo indica, tendo as falas de Marcos e Robinho como referências principais, mas a idéia é ir um pouco além...

Para tanto, apresento a seguir o que disseram esses craques do mais popular esporte no Brasil:

"As vezes o pessoal espera aquele Marcos de 99, com 26 anos, que é bem diferente do Marcos de 37 anos. A bola tem chegado muito ao gol e não tenho condições de pegar tanto quanto pegava. Perdi um pouco da agilidade que tinha, da velocidade, da arrancada. E os erros vão acontecer mais do que aconteciam." (Marcos)

"No futebol, em frações de segundos tudo muda. Você está a um palmo do céu e do inferno." (Robinho)

Resolvi abordar o que ambos falaram, dentro de contextos particulares bastante específicos, com Marcos vivendo momento difícil e o Palmeiras sendo bastante pressionado, o que levou o goleiro a adiantar que pretende encerrar a carreira no final do ano e, por outro lado, com Robinho retornando ao futebol brasileiro, depois de momento decepcionante de sua carreira na Inglaterra, tendo sucesso no novo Santos, sensação atual do futebol paulista e brasileiro.

Marcos traz a tona a mudança a que todos estamos sujeitos com o passar dos anos. A maturidade chega, o corpo muda, não temos a mesma velocidade, os reflexos também já não são os mesmos de antes, quando tínhamos 20 e poucos anos... Para um atleta de alto nível, é sinal de que está chegando a hora de parar... Mas sua experiência, seu conhecimento, caráter (reconhecido por colegas que jogam no mesmo time e nos adversários), talento e história não podem ser esquecidos.

Com tudo o que tem de conhecimento na área, Marcos certamente pode se tornar um profissional que atua nos bastidores do esporte, trazendo para os mais novos tudo o que pode aprender em sua carreira, aonde escolher atuar, seja como treinador, preparador de goleiros, gerente de futebol ou mesmo comentarista esportivo. Mudamos fisicamente, com algumas perdas evidentes, mas ganhamos com a experiência, a maturidade e nos tornamos hábeis e competentes para tantas outras funções. Sinto que isso também aconteceu comigo e, olhem, sou de outra área, a educação, que valoriza (ou ao menos costumava valorizar) a experiência e a maturidade...



Robinho por sua vez, ainda jovem e em idade de explodir no mundial, sentiu a mudança, as cobranças e, segundo a imprensa, andou abusando um pouco do alto poder aquisitivo que conquistou, o que pode ter lhe prejudicado o rendimento na Europa. De volta ao Brasil, no clube que o projetou, se sentido mais em casa, bem acolhido pela torcida santista, parece estar retornando ao jeito moleque de jogar que o projetou, com dribles, assistências e gols.

Suas palavras retratam a experiência de quem há pouco estava vivendo o caos, o inferno astral e a desvalorização ainda bastante jovem. O tempo, em curtíssimo prazo, permitiu-lhe levantar-se, dar a volta por cima, recuperar-se profissionalmente. O que esperar? Que as lições aprendidas não se percam e que, com elas, ele possa continuar brilhando, conquistando seu espaço, inclusive voltando para a Inglaterra para poder mostrar porque foi contratado a peso de ouro...

Divertir-se, usufruir da riqueza que conquistou e viver confortavelmente não são crimes ou pecados, mas para se manter bem profissionalmente é preciso consciência, treinamento, perseverança e, mesmo, sacrifícios. Que as benesses venham nos momentos mais adequados e que não prejudiquem o senso profissional de Robinho e outros craques, dos atletas mencionados e de todos os profissionais...

Por João Luís de Almeida Machado

Sexta-feira, Março 05, 2010

Cartas Abertas: Eleições à vista! O que fazer? Ilusões perdidas?

 

Depois da luta contra a ditadura, entre as décadas de  1960 a 1980, iniciou-se o processo de redemocratização, com as pessoas nas ruas pedindo eleições diretas. Veio a constituinte, ganhamos uma nova lei. Elegeu-se com o voto popular um presidente. Derrubou-se tal mandatário com as pessoas indo as ruas, especialmente os jovens de caras-pintadas. De lá pra cá, o processo democrático tornou-se parte do dia a dia. As pessoas foram se "acostumando" ao voto. Se aprenderam a votar? Creio que sim e tenho certeza que não ao mesmo tempo...

Não quero com isso dizer que concordo ou discordo de tal partido ou candidato. Isso é muito clichê. E as discussões no Brasil têm caminhado sempre nessa direção. Ou se é PSDB ou se é PT. Ou se gosta do Lula ou se gosta do FHC. Há aqueles que pretendem votar no Serra e outros que irão optar pela Dilma (ou pela Marina, pelo Ciro...).

O que quero dizer é que do início dos anos 1990 para cá, politizados aparentemente fomos por participarmos de processos eleitorais. A democracia brasileira é, inclusive, bastante moderna e sem precedentes com suas urnas eletrônicas e resultados que rapidamente são divulgados. O brasileiro médio pode até demorar um pouco para votar, mas já conhece a máquina e, com sua "colinha", vai até a urna, digita os números dos candidatos e resolve a questão, cumpre com o seu dever cívico...

Como ele escolheu seus candidatos? Na maioria dos casos, infelizmente, sem muito critério. Um tapinha nas costas, uma palavra a ele dirigida por um dos políticos ou, ainda pior, camisetas, cestas básicas, dentaduras e tantos outros "benefícios" diretos podem ter-lhe dado a dica quanto ao candidato que merece seu voto...

Aqueles que são mais instruídos, num país onde há tantos que não são alfabetizados plenamente e que decidem os rumos das eleições, parecem pautar suas opiniões políticas por aquilo que lêem, ouvem, assistem. Mas o que a TV (ainda tão poderosa e capaz de influenciar as pessoas no Brasil), o Rádio, os jornais, as revistas ou a internet lhes oferecem de notícia, informação ou dado comprovado sobre os candidatos. Quando é realmente possível ir mais a fundo na busca de dados que tornem o voto realmente consciente, maduro e capaz de promover mudanças?

E olhem que o voto é apenas uma parte do processo. E é a primeira. Depois do sufrágio universal vem o mandato. E no que se refere ao exercício do poder - avalizado pelos votos de centenas, milhares ou mesmo milhões de brasileiros - os políticos em geral o entendem e vivenciam como parte de seu interesse pessoal, privado e distante daqueles que lhe chancelaram a autoridade da representação.

Apesar de representantes do povo, se esquecem das pessoas que os elegeram, usufruem do poder de seus cargos, atribuem-se benefícios, oferecem migalhas aos eleitores como se fossem grandes conquistas. Se escondem em seus gabinetes oficiais. Quando vêm a público é porque precisam de algo. Acreditem, quase nada do que falam é espontâneo. Tudo o que dizem é pensado previamente e calculado de forma precisa quanto aos resultados que devem trazer tais palavras e colocações...

E nós, representados por eles, esquecemos que a política não se restringe ao voto. Não fazemos pressão. Não cobramos atitudes. Nem mesmo sabemos o que está acontecendo, a não ser pela mídia, que publica o que acha importante e conveniente de acordo com seus interesses (que não sabemos ao certo quais são). Há, certamente, pessoas dignas, decentes e honestas no mundo político (apesar de precisarmos procurar muito, mas muito mesmo, por elas, normalmente sufocadas pelas "raposas" que dominam o "galinheiro" e controlam os "ovos" ali gerados) e também idealistas na mídia (submetidos ao mercado, aos interesses das instituições nas quais trabalham, a necessidade de receberem seus salários no final do mês...).

O que espero do futuro? Penso (ou pelo menos gosto de pensar) que as próximas gerações, aquelas com as quais trabalhamos neste momento nas escolas, podem virar o jogo. Mas as vezes me decepciono em perceber o quanto são alienados e vivem olhando para o próprio umbigo. Platão e sua Alegoria da Caverna nunca foram tão atuais. Precisamos de novos Sócrates que incomodem muita gente, tirando-lhes da zona de conforto e comodidade em que se instalaram... 

Esta nova geração é fruto de tudo aquilo que nos cerca - individualismo,  consumismo, globalização, mundo virtual, competitividade, mídia... E o que é reforçado diariamente senão a necessidade de vencer, custe o que custar, sem valores e ética, sem cidadania e solidariedade, sem paz e amor no coração... Lembro-me que diziam que quando jovens somos incendiários e queremos botar fogo no circo, lutar por causas nobres, nos envolver com a defesa dos fracos e oprimidos, revolucionar este mundo "careta" e virar a mesa em relação a acomodação que dita os passos de tantas pessoas...

Há ainda a esperança, o idealismo, algumas bandeiras desfraldadas no horizonte dos adolescentes e jovens, mas aqueles que estão dispostos a entrar na briga por esses ideais são poucos, a maioria só quer realmente saber o que aconteceu na Malhação ou no BBB, paparicar alguns astros e estrelas que lhes são incensados pela mídia, se mostrarem valentes e sarados, levantar suspiros de seus pares do sexo oposto... Lêem pouco, não pensam no que estão recebendo de informação (ainda que em doses cavalares), querem passar e entrar em boas universidades mas acham que isso cai do céu, assistem filmes porém é simplesmente por diversão e pipoca - sem grandes ganhos intelectuais...

De incendiários se tornaram as vítimas do incêndio alheio e continuam achando que tudo vai bem, apesar do fogo que diariamente lhes ameaça cada vez mais - perceptível com o aquecimento global, a violência, as drogas, a corrupção, a péssima qualidade da educação no país, o sistema de saúde precário... Não os vejo nem mesmo como bombeiros, de acordo com aquela analogia a que me referi, comum quando eu tinha meus 16, 17 e 18 anos...

Os incendiários envelheceram e, como previsto, na maioria dos casos viraram bombeiros, da turma do apaziguamento permanente. O mundo tornou-se previsível (a não ser pelo rumo do dinheiro dos especuladores e investidores internacionais), politicamente correto dentro do possível, controlado por câmeras e sistemas eletrônicos o tempo todo, mas ainda povoado por incertezas quanto ao clima, o crime, a política, as guerras...

As raposas tomaram conta de vez do galinheiro e, se nada for feito, ficarão por lá o tempo que quiserem, ou ao menos enquanto ainda tivermos ovos e galinhas para que eles façam seus banquetes a nossa custa...

As novas gerações vivem alheias e distantes, interessadas em seus videogames, computadores, músicos da moda, roupas de grife, celulares, orkuts e programas de TV de conteúdo duvidoso... Querem apenas se garantir... O que isso significa em meio a uma sociedade como a nossa eles não sabem ao certo, até porque não estão preocupados em entender nada além daquilo que seu "umbigo" abriga...

Deus do céu, o que fazer? Que me perdoem os ateus e os agnósticos por isso, pois sou católico praticante! Apesar disso, consciente de que os rumos aqui na Terra cabem a nós, que temos livre-arbítrio, consciência e inteligência para resolver nossas vidas, ainda que nesse momento e linhas levante dúvidas reais quanto a isso...

O que fazer?

Por João Luís de Almeida Machado

Segunda-feira, Março 01, 2010

Geração Y: Quem são? O que pensam? Que problemas têm?

Eles nasceram sob a égide da tecnologia. Não conhecem o mundo sem internet. Nem desconfiam como eram bancos, supermercados, lojas, serviços públicos ou qualquer tipo de atividade humana antes do advento dos computadores e suas redes. São leitores de manchetes, ávidos por informação rápida, que possa ser percebida a partir de um olhar. Acham que e-mail é uma ferramenta ultrapassada, por isso mesmo preferem se comunicar pelas redes sociais, como o Twitter, o Facebook , o Orkut...

Faixa etária? Têm no máximo 15 ou 16 anos. São imagéticos. Há entre eles alguns que ainda se interessam por "antiguidades", como livros, CDs, jornais, televisão...

Pois é, estou falando dos meus filhos e também dos alunos com os quais trabalho atualmente. É certo que você também conhece alguns deles, que podem ser parte de sua família ou da vizinhança. Esta garotada é ágil mesmo, mas tem dificuldades para se concentrar por muito tempo em um único assunto, consideram a escola uma "infeliz" obrigatoriedade, iniciam namoros e amizades pela web e, por conta da velocidade do mundo em que vivem, acabam tendo alguma dificuldade para se relacionar fora da internet, com seus pais e parentes, professores e pessoas mais velhas em geral [todos lentos ou ultrapassados, de acordo com seus conformes].

Não bastassem alguns contratempos, como os que mencionei, é crescente a quantidade de garotos e garotas da Geração Y (ou Net, como dizem alguns especialistas) que sofre de ansiedade, stress, depressão ou síndrome do pânico. Há também preocupações quanto a superexposição a tela do computador, que pode causar problemas de vista, antecipando dificuldades que só teriam quando mais velhos (como vista cansada ou astigmatismo).

Alguns estudiosos e especialistas em saúde pública alertam até mesmo para o fato, constatado por números e dados provenientes de diferentes países, desta geração já estar sofrendo com a overdose de exposição aos computadores e a web, com alguns adolescentes já podendo ser caracterizados como viciados em internet, estando passíveis de tratamento em clínicas, como dependentes de drogas...

Temos que estar atentos aos fatos para que suas dificuldades nos relacionamentos, na escola e futuramente até mesmo em suas vidas pessoais e profissionais não se tornem ainda maiores, com dores de cabeça para eles e seus familiares... Como pai e professor, me preocupam as questões relativas a educação, falta de concentração e relacionamento, perceptíveis pela animosidade, agressividade ou mesmo o contrário disso, com a passividade e o silêncio excessivos.

A família, em primeiro lugar, deve estar muito atenta a estas questões. A escola pode apoiar as ações familiares e, em seus domínios, ensejar ações que garantam melhor rendimento nos estudos, concentração, leitura... A sociedade, como um todo, no entanto, deve estar atenta a esta e também as futuras gerações, pensando tanto na questão da saúde pública quanto na educação, cidadania, valores e ética!

Por João Luís de Almeida Machado

Quarta-feira, Fevereiro 24, 2010

De Patinhos Feios a Cisnes...


Jorge era um garoto tímido. Sentava-se sempre nas fileiras intermediárias da escola. Sua discrição fazia com que passasse os anos de sua educação sem chamar a atenção dos colegas ou mesmo dos professores. Normalmente os mestres devotavam maior tempo aos colegas de melhor rendimento nas disciplinas ou aos que davam mais trabalho por conta de problemas disciplinares. A ele, Jorge, e alguns de seus contemporâneos, restava uma situação de quase anonimato...

Ele admirava os colegas populares, do seu modo, na sua, sem dar alarde. Percebia o quanto eram salientes, como gostavam de chamar a atenção de todos e, é claro, percebia que isso também provocava risos e suspiros entre as garotas do colégio, especialmente as mais bonitas e interessantes. Estes alunos se davam bem nos esportes mas, com exceções é claro, eram alunos apenas medianos ou, na maioria dos casos, fracos ou medíocres. Normalmente ficavam alguns dias a mais no final do ano, tentando a aprovação nos períodos de recuperação.

Este não era o caso de Jorge. Ele não era brilhante, mas atingia as médias pretendidas, o que lhe permitiu terminar os estudos com notas razoáveis em seu currículo. Não conseguiu também chamar muito a atenção das meninas, a não ser da Helena, garota que, como ele, também prezava a discrição e a sobriedade. Terminaram o Ensino Médio namorando. Foram para uma mesma faculdade. Ele foi cursar engenharia. Ela por sua vez foi para a área de educação.

Esperaram terminar o curso para anunciar o noivado e alguns meses depois se casaram. Enquanto isso já tinham corrido atrás do prejuízo e conseguiram boas colocações no mercado. Aquele perfil tímido e até um pouco arredio do colégio ficara para trás em ambos os casos. Tornaram-se expoentes na faculdade. Foram reconhecidos por seus professores e colegas. As oportunidades de estágio bem aproveitadas os colocaram em empresas sólidas, onde com o passar dos anos, foram se consolidando a ponto de atingir situações de destaque. Ele virou coordenador de uma das unidades da fábrica para a qual trabalhava. Ela passara de professora a diretora de uma escola pública que estava cada vez melhor e, além disso, depois de fazer especializações, ingressara numa ótima universidade local.

Um dia, olhando o álbum com as fotos dos tempos de colégio, viram as fotos com a turma toda e resolveram descobrir o que acontecera com os amigos e conhecidos daquele tempo. Buscaram informações pela internet. Fizeram contatos telefônicos. Encontraram alguns nas cidades da região onde moravam. Conversaram com quase todo mundo. 

No final dessas buscas, descobriram que eles, que para todos os outros sempre tinham sido patinhos feios, eram as pessoas mais prósperas e bem resolvidas do grupo. Os populares, em sua maioria, acabaram se casando cedo, em virtude de namoradas que engravidaram precocemente... As meninas mais "espertas" da sala naquela época acabaram se tornando donas de casa ou então não foram muito adiante nos estudos, contentando-se com empregos pouco promissores... Os melhores alunos da sala, de quem se esperava muito, na universidade, acabaram sucumbindo, demonstrando menos interesse e disposição e, ao final, formaram-se sem brilho, entrando para o mercado em posições modestas, menores do que as ambicionadas e pensadas na época do colégio.

Teve até gente que, ao encontrá-los durante suas buscas, não os reconheceram. Não sabiam quem eram, pois na época da escola eram tão discretos e tinham aparência tão comum que, ficou difícil perceber de quem se tratava, anos depois, ainda mais porque agora pareciam mais jovens e belos que seus ex-colegas de sala...

Passados todos estes anos, haviam deixado de ser patinhos feios e tornaram-se cisnes. A discrição e a sobriedade de outrora se transformou numa elegância clássica, acentuada pela educação extrema, melhorada pela postura humilde mas firme. Jorge e Helena haviam atingido a maioridade, seus colegas, por outro lado, infelizmente, nunca conseguiram superar a imortalidade que pensavam ter atingido na adolescência e no início da juventude...

Por João Luís de Almeida Machado

Segunda-feira, Fevereiro 22, 2010

Primeiro dia de aula: Mestres e Pupilos se reencontram

Primeiro dia de aula. Alunos ansiosos andam pelos corredores. Professores tentam demonstrar tranquilidade. O sinal ainda não bateu. Sorrisos e saudações entre mestres e pupilos dão uma amostra de que na escola, apesar das tensões eventualmente aflorarem, prevalece um ambiente amigo, cordial, camarada e muito propício ao ensino-aprendizagem.

É perceptível que as pessoas, ainda que algumas com ressalvas, principalmente os alunos – que reclamam de levantar cedo, das tarefas que têm pela frente, de alguns professores com os quais não tem uma relação tão boa, entre outros temas que geram descontentamento – apreciam estar nestas salas, corredores, laboratórios, bibliotecas, quadras...

O encontro marcado começa, ano após ano, com turmas que se renovam, é gente que vai e outros tantos que vem. Saudades de ambas as partes. Dos professores, além das boas memórias, das lições, dos conteúdos e dos momentos agradáveis. Ficam para os alunos o carinho, a preocupação, os conselhos. Mesmo entre os que são mais sérios, turrões, bravos ou tímidos demais para expressar esta afeição que o ambiente escolar propicia.

Dos alunos, para os professores, dos mais aplicados aos mais quietinhos, daqueles que aprontam e dão muito trabalho aos que têm muita dificuldade, ficam tanto a devoção e a admiração – mesmo que entremeadas por situações de dificuldade, tensão e indisciplina – quanto o reconhecimento do esforço, a dedicação para aprender a vontade de vencer.

É claro que no primeiro dia de aula ainda não é possível prever ou antecipar tudo que há pela frente. Não dá para saber ao certo quem é quem. Mesmo em relação aos alunos com os quais trabalhamos em anos anteriores, em outras etapas de sua formação. As férias podem ter mudado algo neles. Eles podem ter amadurecido, ou mesmo resolvido ficar um pouco mais travessos, brincalhões...

A escola prevê, com os planos de ensino, aquilo que devemos, pretendemos e iremos lecionar. Em Matemática, História, Ciências, Português e todas as áreas do conhecimento, ficamos antevendo e explicando, no dia a dia das escolas, com a esperança de que, de algum modo, isso possa legar aos estudantes um futuro mais digno, glorioso, de conquistas e muitas alegrias.

Por vezes nem nos damos conta de que os professores vão muito além das áreas do conhecimento, nas quais atuam como especialistas ou mesmo como generalistas (nas séries iniciais do ensino fundamental). Entramos na alma, deixamos, indelével, nossas marcas. E estas marcas podem ser profundas ou superficiais, mas estão lá. Assim como recebemos também, dos alunos, retornos que nos acompanham ao longo de nossas vidas. Alguns mais do que outros, sendo sempre lembrados, mas todos, de algum modo, passam a fazer parte de nossas trajetórias profissionais e pessoais.

Ser professor nestes primeiros dias é assumir riscos e compromissos que duram não apenas um ou alguns anos letivos. Vai muito além disso. Relaciona-se à existência de todos e de cada um dos alunos em particular, seja porque lhes demos instrumentais com os quais irão poder pelejar na vida (e esperamos que com isso possam vencer) ou porque lhes demos a oportunidade de usufruir de nossas crenças, valores, ações e ética para que, de algum modo, sejam capazes de escolher os seus caminhos tendo outros referenciais.

Educar é um ato de amor profundo. Ao educar salvamos vidas. Na escola, perseguimos não apenas conteúdos, mas dignidade, cidadania, ética e felicidade em cada aluno com o qual nos encontramos.

Poético demais? Creio que não. A poesia não apenas ilumina a alma e dá força para lutarmos diariamente por um mundo melhor. É poderoso elemento que alimenta o sonho, permite e estimula o plano de vida e nos possibilita concretizar um amanhã realmente digno e feliz! Um ótimo retorno às aulas a todos!

Por João Luís de Almeida Machado

Sexta-feira, Fevereiro 19, 2010

Falta de cautela, pressa e arrogância: Caminho rápido para se fazer bobagens...


  • "Errando, aprendi que falta de cautela e pressa, temperadas com pitadas de arrogância, são o caminho mais rápido para se escrever bobagens." [Gilberto Dimenstein, no livro As Armadilhas do Poder - Bastidores da Imprensa]

O que se aplica ao jornalismo serve muito bem para todas as demais instâncias da vida. A afirmação do jornalista Gilberto Dimenstein, da Folha de São Paulo, autor de vários livros de destaque, pode e deve ser pensada além da área de atuação específica profissional onde ele atua e milita há anos com desenvoltura e qualidade. Diga-se de passagem que boa parte de seu sucesso se deve justamente ao fato de que levou em consideração esta e outras lições apresentadas em seus artigos e publicações!

No que se refere a vida, "cautela e canja de galinha", conforme o dito popular e revendo as palavras essenciais ditas por Dimenstein, merecem nossa atenção. Somos hoje instados todo o tempo a agir. Nossas ações parecem não carecer de tempo para pensar, refletir, analisar as situações, fatos e pormenores que envolvem nossos atos. Esses impulsos tem, conforme o pensador americano Nicholas Carr nos diz em seus estudos, um claro "link" com o mundo rápido que nos circunda e envolve, onde a tecnologia atingiu a condição de onipresente.

Não é possível ser cauteloso se somos e agimos de forma rápida. Qualquer precaução ou cuidado que eventualmente precisemos ter em relação as decisões e ao andamento de nossas vidas vai, literalmente, para o espaço (ou seria melhor dizer para o ciberespaço?) se a velocidade é a tônica.

A pressa é (realmente) grande inimiga da perfeição. Podem dizer alguns que a perfeição é inatingível, mas a qualidade está logo ali e deve ser o que queremos atingir em nossas vidas... Vejo hoje que há muitos alunos com os quais trabalho cuja preocupação é apenas resolver, o mais agilmente possível, as questões que estamos trazendo, propondo e levando-os a considerar. Como estou dando aulas de filosofia e sociologia, disciplinas que ensejam todo o tempo a necessidade da reflexão... Estou no meio do redemoinho, ou seja, nadando contra a maré ao pedir-lhes que se dêem o tempo para pensar com qualidade o mundo ao seu redor...

Agora, se falta de cautela e excesso de pressa prejudicam, certamente as tais "pitadas de arrogância" são insuportáveis, não é mesmo? Arrogância é, com certeza, uma das mais desprezíveis características de um ser humano, ao menos do meu ponto de vista. Pessoas que se sentem superiores aos demais por conquistas realizadas ao longo da vida, seja quais forem (dinheiro, status, conforto, destaque profissional...) perdem qualquer brilho por se pensarem especiais ou diferenciadas, membros de uma estratosfera, clube seletivo ao extremo ou mesmo, em alguns casos, do Monte Olimpo...

Sem comentários... Apoiar-se em suas conquistas para desprezar ou tratar os demais com desdém é o cúmulo da antipatia. Orgulhar-se de suas conquistas, demonstrar altivez, falar com propriedade e com isso projetar-se pessoal ou profissionalmente, mas sem em momento algum deixar a soberba lhe fazer pensar que é melhor que os outros é o caminho a seguir e não ser arrogante...

Na vida temos sempre melhores opções. Procure-as. No caso daquilo que acabamos de falar, dê-se a oportunidade de ser mais humilde, solicito e gentil com as pessoas. Permita-se o tempo necessário para refletir sobre suas questões, seus problemas, sua vida. Aja com cautela para não "queimar os dedos", "levar choques desnecessários" ou "cair da embarcação"...

Por João Luís de Almeida Machado

Terça-feira, Fevereiro 16, 2010

O menino e o siri


A praia estava tranquila quando eles chegaram. Os pais logo se ocuparam em arrumar um lugar aprazível, com alguma sombra, para que os raios solares não pudessem fazê-los se arrepender de nada quanto ao dia que pretendiam ter por ali. Passaram protetores solares na pele e deixaram o filho Matheus se acomodar próximo ao mar, com seus brinquedos de praia, para que pudesse cavar buracos e esculpir a areia. E foi o que ele fez durante um bom tempo, sentado ali numa boa como se nada mais no mundo existisse.

Parecia até que não tinha criança alguma por perto. Ele pegou suas pequenas pás e formas e assim gastou parte do tempo que tinham. Usava um boné colorido e uma sunga azul. A tranquilidade dos pais era grande pois nessa época do ano já não havia muitos visitantes naquela praia, as pessoas já estavam preferindo ir a alguma estância turística nas montanhas, o inverno estava a se avizinhar e aquele calor que tanto motivava as pessoas a viajar para o litoral já se dissipara.

A calma da situação fez com que o jovem casal ficasse ali, a poucos metros do menino, a conversar, folhear jornais e revistas, beliscar algum aperitivo e bebericar umas cervejinhas enquanto conversavam um pouco sobre a vida. Sempre alternavam olhares em direção ao filho, benção maior de suas vidas, que aos 7 anos estava cada vez mais bonito, saudável e danadinho... Aprontava em silêncio, era do tipo bebe quieto, quando menos se esperava, de repente, alguma arte realizava.

No começo os pais ficavam bravos, lhe chamavam a atenção, davam-lhe alguns sermões e puxões de orelha. Quando a questão era mais séria, colocavam-no de castigo por dez minutos, para que pensasse sobre o que havia feito. Em certa ocasião, por exemplo, quando receberam a visita de um padre para o almoço, o menino interrompeu a refeição e perguntou se podia contar piada, ao que os pais imediatamente responderam que não, temerosos do que estava por vir, pois na vizinhança havia um amigo dele que lhe ensinara algumas anedotas engraçadas e, ao mesmo tempo, um tanto quanto sujas... O padre, para ser simpático, interveio em favor do garoto, mas os pais ainda assim tentaram demovê-lo da idéia, desestimulá-lo, ao que ele prontamente disse, procurando acalmar a todos:- É piada de padre, não tem problema não...

Isso deu num sermão dos pais depois do ocorrido e, depois, virou história divertida contada para amigos e parentes.

Na praia, no entanto, o pequeno Matheus parecia sossegado demais. E seu pai resolveu então aproximar-se sorrateiro para ver o que estava a acontecer. Viu então que o menino acompanhava com os olhos, na proximidade de suas escavações, um siri a ziguezaguear para lá e para cá. E o mais interessante é que ele não apenas o via, também falava (baixinho) com ele.

- Você anda para trás...

- Aonde está indo?

- E sua casa, é embaixo da terra...

- Dizem que devemos sempre andar para frente...

- Quem anda para trás não melhora, viu siri!

E o pai ali. Quieto a pensar no que o filho falava. Lembrava de ter dito isso algumas vezes com o menino por perto, calado, a brincar com seus carrinhos e jogos, mas não pensara que isso de algum modo o influenciaria. "Andar para a frente". Escutara tanto de seus próprios pais, depois de alguns professores, posteriormente de amigos e colegas de trabalho. Era como um verdadeiro mantra para ele e para tantas pessoas. Ninguém ao menos se dava o trabalho de pensar a afirmação.

De repente, seu filho, com recém-completados 7 anos, conversava com um amigo que não podia retrucar e tampouco entender, cuja natureza era andar principalmente para trás...

Se deu então o trabalho de pensar o que estava ouvindo e percebeu que tal "verdade", pouco questionada, nem sempre devia ser assim vivida. Havia momentos na vida em que seria importante parar de avançar, de ir para a frente e, certas ocasiões ou circunstâncias em que o melhor mesmo, para espanto geral, seria retroceder...

Fora assim com ele mesmo. Quase se casara com outra mulher... Voltou atrás a tempo. Desistiu e se livrou de um futuro difícil, com uma pessoa temperamental, por quem não sentia amor verdadeiro, apenas uma paixão passageira. Em outra ocasião fora convidado para trocar de emprego, com salário melhor e cargo de maior importância. Resolvera ficar onde estava e, com isso, sem andar para frente ou para trás, se dera muito melhor, pois a empresa que o chamara alguns meses depois passaria por dificuldades e viria a falir...

Ao se lembrar de tudo isso, chamou o filho, exatamente no momento em que o siri se escondia em sua toca. Abraçou o menino, disse a ele com simplicidade o que pensara, explicando-lhe que nem sempre na vida tínhamos que andar para a frente e, em seguida, colocando-o no alto de seus ombros, começou a andar de costas, como o siri, na direção do sorveteiro que por ali passava...

Por João Luís de Almeida Machado

Segunda-feira, Fevereiro 15, 2010

Pessoas de bem e meliantes...


O menino veio correndo. Trombou com o jovem que acabara de sair de uma padaria. Os dois foram ao chão. Atrás do garoto estavam uma mulher, obesa, arfando sem parar, com ar de quem tem conta bancária polpuda e, ao mesmo tempo, nariz tão empinado que impede até que seus olhos sejam fitados diretamente. Junto com ela, um policial, que passava pela rua e foi interpelado pela dona aos berros.

Ao que tudo indicava, o meliante seria aquele menino. Seus 11 ou 12 anos nada significavam para a madame, tampouco para o oficial da lei. O furto havia sido praticado e ao que sabiam, a "fera" precisava ser encarcerada. Com isso, diziam, outras pessoas de bem poderiam andar mais tranquilas pelas ruas. Os corretivos a serem aplicados ao pequeno marginal certamente dariam rumo melhor a sua existência.

A trombada com o cliente que acabara de sair com seu pacote de pães e litro de leite do estabelecimento do seu Manoel foi a chance que esperavam para botar as mãos naquele moleque. Ainda se levantavam os dois do chão quando o policial agarrou o suposto meliante, com toda a energia disponível em seus braços fortes e, sacudindo o cassetete a centímetros dos olhos do garoto, começou a gritar:

- Cadê a bolsa da dona? Cadê a bolsa? Seu pivete...

E o menino, assustado, respondia rápido:

- Não sei de bolsa nenhuma. Não sei do que está falando...

Levou um safanão e, em seguida, foi novamente acusado, desta vez pela mulher:

- Seu guarda, foi ele mesmo. Tenho certeza. Estava andando nas proximidades do metrô quando várias pessoas saíram da estação e, do meio delas, surgiu este... este... moleque. Ele saltou na minha frente e agarrou-se a minha bolsa tão rapidamente que não tive tempo para me defender...

- Sem problemas senhora. Ele já está detido. Vou levá-lo a delegacia e encaminhá-lo para o juizado, de onde será enviado a casas correcionais especializadas em menores.

- O que vai acontecer com ele não me importa. Quero apenas minha bolsa de volta. Há documentos, cartões, dinheiro e pertences pessoais lá dentro.

O moço que havia comprado o leite já havia se levantado e então resolveu entrar na conversa:

- Onde está a bolsa roubada?

- Não roubei nada moço. Não tenho nada comigo. Veja, 'tô' limpo.

- Ele deve ter jogado no caminho - explicou o policial.

- Não. Não foi isso. Eu não peguei nada - tentou defender-se o menino.

- Pegou sim. Marquei seu rosto, apesar da multidão e, assim que senti a bolsa sendo tirada de meus braços, comecei a gritar. Por sorte este oficial passava por ali e me prestou pronto socorro - arrematou a vítima do furto.

Ao que o jovem, estudante de direito, disse:

- Mas se ele não tem a bolsa, será que a justiça está sendo feita? A senhora tem total certeza quanto ao fato de que este menino tirou-lhe a bolsa? 

- Acho que você não deve se intrometer - disse o policial.

- Foi ele sim. Mesmo que não ache a bolsa quero que seja preso. Este delinquente pode atacar outras pessoas nas ruas. Gente de bem como eu vai se sentir mais protegida com ele atrás das grades...

- Sem a prova material do crime estamos numa situação de palavra contra palavra. É a sua contra a dele, senhora - disse o aspirante ao judiciário.

- Chega de conversa mole. Vamos levar o moleque para a delegacia. Lá o doutor encaminha para a instituição de menores.

E foram-se embora. O menino chorando, assustado, sentindo-se inseguro e preso. Seus olhos diziam que queria a mãe ou o pai a lhe proteger. Sua aparência, de desamparado, com camisas e calças sujas e puídas, lhe davam ar de morador das ruas. Sabe-se lá onde vivia, se tinha família, o que fazia para sobreviver, mas o fato é que estava sendo preso.

Mas essa história guarda algumas ironias...

A metros do local onde ocorrera a trombada entre o garoto e o jovem estudante de direito um outro moço a tudo observava, atento, para ver onde tudo aquilo iria dar. Em seus braços, já aberta, estava a bolsa da madame, com os pertences sendo extraídos e avaliados para fazer a féria do dia daquele marginal. Ele sempre aplicava o mesmo golpe, em diferentes áreas da cidade, na saída do metrô, empurrando alguém que estivesse a sua frente sobre alguma vítima desavisada para, na surdina, surrupiar-lhes bolsas, carteiras, celulares...

O policial que efetuara a prisão, estava nas redondezas do crime, a extorquir alguns comerciantes pela proteção que fazia ali, em suas rondas. Ameaçava-os de sumir do mapa e deixar os bandidos tomarem conta se não recebesse uma "ajuda de custo"...

A madame assaltada, por sua vez, era mulher de um vereador de cidade vizinha, que fora a capital para gastar um pouco do dinheiro que seu marido recebia todos os meses para votar nos projetos do prefeito, de partido oposicionista. Alguns meses depois o tal vereador, marido da mulher "de bem", seria flagrado por câmeras colocando maços de dinheiro nas cuecas e meias, pois estava sem bolsos para acomodá-los em suas calças...

Quanto ao jovem estudante... Só lhe restou apanhar os pães e, literalmente, chorar o leite derramado, voltando a padaria do seu Manuel para comprar outro litro para o café da tarde com seus colegas da república...

Por João Luís de Almeida Machado

Sexta-feira, Fevereiro 12, 2010

António Nóvoa e a importância de rever a formação dos professores


Revista Educação - No Brasil vivemos um momento de grande discussão sobre a formação do professor, o que inclui a formação inicial, nas universidades, até a valorização dos profissionais mais experientes. Hoje, esta é uma questão mundial?
António Nóvoa - É uma questão de âmbito mundial. Num texto recente, apresentei cinco teses sobre a formação de professores que respondem à sua pergunta. É impossível desenvolvê-las, mas posso enunciá-las. A formação de professores deve: a) assumir uma forte componente prática, centrada na aprendizagem dos alunos e no estudo de casos concretos; b) passar para 'dentro' da profissão, isto é, basear-se na aquisição de uma cultura profissional, concedendo aos professores mais experientes um papel central na formação dos mais jovens; c) dedicar uma atenção especial às dimensões pessoais, trabalhando a capacidade de relação e de comunicação que define o tato pedagógico; d) valorizar o trabalho em equipe e o exercício coletivo da profissão; e) estar marcada por um princípio de responsabilidade social, favorecendo a comunicação pública e a participação dos professores no espaço público da educação.  [Entrevista de António Nóvoa, Doutor em Educação e reitor da Universidade de Lisboa, a revista Educação, nº 154]


Nóvoa é uma das mais consideradas e respeitadas autoridades mundiais em educação. Lançou recentemente o livro "Professores - Imagens do futuro e do presente" e, nesta entrevista concedida a Revista Educação reforça mais uma vez a necessidade de mudanças no processo de formação de professores. 

Ao enunciar cinco teses, resumidas em sua resposta acima, o educador destaca alguns pontos que, infelizmente, ainda estão distantes daquilo que é a realidade brasileira quanto a formação dos professores. Inicia, por exemplo, destacando a necessidade da componente prática, com foco no processo de ensino-aprendizagem e no exame da atuação de outros professores (estudo de casos), o que já deveríamos estar fazendo há bastante tempo! 

Tal prática significaria valorizar ações que, uma vez tendo sido aplicadas em salas de aula e se mostrado bem ou mal sucedidas, permitiriam ao futuro professor, ainda em formação, antecipar-se e evitá-las ou implementá-las (repensando-as de acordo com diferentes contextos, transformando-as quando necessário, atualizando-as sempre que possível).

O foco na aprendizagem do aluno, igualmente necessário mas difícil de colocar em prática (por conta da cultura estabelecida nas escolas, há décadas, que centra toda a ação pedagógica no professor), já preconizado por outros pensadores da educação, exige desprendimento dos educadores, capacidade de ouvir (difícil de encontrar) e também mudanças estratégicas no trabalho do educador, que passaria a ter que concentrar suas ações no papel do orientador das realizações dos educandos, trazendo e fomentando participações, esclarecendo idéias quando necessário e, em especial, levando os alunos a se tornar o centro do trabalho realizado na escola.

Se pensarmos a afirmação de Nóvoa quanto a idéia dos professores mais experientes auxiliarem na formação dos mais jovens (projeto em andamento em Nova Iorque que revigorou a educação local), tanto no Brasil quanto no mundo atual - globalizado, rápido e voraz - perceberemos que o espaço para a consecução desta prática ainda não existe. Deveria, é certo. Parece, inclusive, bastante óbvio, mas esbarra em problemas tais quais a resistência dos mais jovens a ouvir os professores experientes; a longa (e louca) jornada de trabalho atual dos professores brasileiros; a cultura individualista e competitiva que existe no mundo e que nos compele a ver no outro profissional não um colega, colaborador, que pode nos ajudar e, sim, um competidor...

Resolver a situação é possível. Começando por reconhecer e valorizar os méritos e o trabalho destes profissionais mais experientes, dando-lhes novas diretrizes e funções no espaço educacional, relacionadas a essa tutoria ou 'coaching'. Neste novo trabalho, acompanhariam os mais jovens de perto, teriam momentos de reflexão e orientação sobre a ação pedagógica destes iniciantes na profissão, preparariam materiais (cursos, palestras, leituras) de apoio e estudariam tais recursos junto a seus 'orientandos'...

Desenvolver a capacidade de comunicar idéias e, reforço, de pensar melhor não apenas as práticas mas também conceitos e proposições levadas a sala de aula é, do mesmo modo, ponto decisivo para que a educação melhore, como atesta Nóvoa. É certo que uma comunicação mais efetiva deve vir acompanhada de uma melhor capacidade de relacionar-se com os outros, em especial com os alunos. Estas competências não fazem parte do itinerário dos professores em formação. Praticamente se despreza o fato de que os professores são comunicadores e devem compreender tanto aspectos de relações públicas e pessoais quanto, até mesmo, estarem melhor formados para a compreensão da psiquê humana.

Os demais pontos mencionados pelo atual reitor da Universidade de Lisboa, que fecham sua explicação, são igualmente importantíssimos. A escola têm um claro e evidente papel no que tange a responsabilidade social. Não apenas deve trabalhar conteúdos e saberes, mas evidentemente dar o norte quanto a cidadania, ética, vida em coletividade, compreensão do papel político de todos (estimulando maior engajamento e participação)... 

Trabalhar de forma mais integrada dentro das escolas e redes então nem se fala... Os professores, a orientação, a coordenação e a direção tem que se ver como um único corpo, respeitadas e valorizadas as diferenças que fazem com que todos possamos crescer e ganhar dentro do grupo. O sentido coletivo da ação dá mais coerência e pertinência ao trabalho perante os alunos, a comunidade atendida e toda a coletividade. Falas e ações alheias ao que a maioria dos profissionais trazem a público acabam fazendo com que a compreensão do projeto pedagógico, dos objetivos e realizações do grupo de trabalho acabem não sendo compreendidas pelos alunos, pais e comunidade como deveriam. Temos que agir coletivamente para que possamos realizar práticas e efetivar a educação de modo coerente!

Por João Luís de Almeida Machado

Quinta-feira, Fevereiro 11, 2010

Filosofia ou História da Filosofia?


Retornamos as aulas. Um novo ano letivo está em curso. Depois de 2 anos longe do ambiente escolar, estou de volta. E neste ano de 2010, até mesmo por conta da legislação que passou a demandar, o currículo educacional do Ensino Médio passou a contar com Filosofia e Sociologia. Coincidentemente, voltei para as salas de aula trabalhando justamente com essas disciplinas. Tenho brincado com alguns colegas dizendo-lhes que, meu retorno exclusivamente para lecionar nestas disciplinas talvez seja um indício de que o tempo passou e que, por conta disso, com os cabelos brancos (ou escasseando...), talvez esteja mais para filósofo do que para historiador, minha formação de origem...

Brincadeiras à parte, ao retomar este trabalho de formação com o alunos do Ensino Médio, em dois colégios da região onde vivo (Vale do Paraíba), me vejo diante de uma situação que muitos outros professores destas disciplinas devem estar vivenciando: Ensinar Filosofia ou História da Filosofia?

Os livros e apostilas empregados pelas escolas também apresentam esta questão na proposição e nos conteúdos que trazem para as escolas. Na realidade, tenho percebido que a maioria dos materiais didáticos da área caminham mais na direção da história da filosofia, cronologicamente explicando a evolução do conhecimento e das escolas filosóficas desde o surgimento desta, ainda no século V a.C., com Pitágoras de Samos (ele mesmo, famoso entre os alunos por sua contribuição para a matemática, o conhecido teorema que traz o seu nome).

Pessoalmente creio que a proposta não deva ser trabalhar a história da filosofia e, sim, propriamente o pensar filosófico, profundo e qualificado, que nos permite conhecer o mundo ao nosso redor, questionando suas causas, razões, consequências... O que, aliás, faz muita falta a essa geração, caracterizada por um contato cada vez maior com as tecnologias e, na surdina, sendo preparada para realizar muitas tarefas ao mesmo tempo com auxílio de todos os instrumentais que estão sendo criados. Falta-lhes foco, disciplina, vontade e preparo para um pensar mais denso, capaz de lhes permitir uma compreensão mais ampla, dando-lhes alternativas e argumentos melhores para produzir seus próprios pensamentos e não apenas "copiar e colar"...

É caminho mais trabalhoso este que vai pela via da filosofia e que pretende formar estes estudantes para um pensar mais agudo, racional, ligado tanto nos saberes que nos foram legados por grandes pensadores ao longo da história mas traduzindo-os para o mundo atual, no qual vivemos, buscando soluções para os grandes problemas e questões com as quais estamos lidando hoje em dia...

Tenho enfatizado a necessidade entre os alunos de perceber, entender e caminhar na direção de uma filosofia que nos permita causar. O sentido desta fala é aproximar o que estamos aprendendo daquilo que vivemos no mundo e que teremos pela frente num futuro próximo e, mesmo, distante. As resistências existem, decorrem da falta de preparo ou prática para este exercício, para esta prática e, mesmo, para esta ação filosófica, reflexa, analítica, crítica, engajada e construtiva.

Não tenho, com isso, a intenção de deixar de lado a história da filosofia. É componente que nos acompanha, auxilia, explica, orienta os olhares. Digo aos alunos que estes gigantes do pensamento (Nietzche, Marx, Platão, Santo Agostinho, Sócrates...) são tão fabulosos que, mesmo muito tempo depois de suas mortes, seu pensamento pulsa, nos alimenta, permite entender o mundo, continuam atuais, são eternos...

Cravo, portanto, a minha opção pela Filosofia mesmo, com os subsídios da história da filosofia a nos auxiliar. A questão, no entanto, é ainda campo aberto, a ser pensado coletivamente, que causa alguma polêmica e que envolve até mesmo a questão da formação para o trabalho com esta disciplina, não é mesmo?

Por João Luís de Almeida Machado

Quarta-feira, Fevereiro 10, 2010

A Unesco e o Ano Internacional da Biodiversidade

A Unesco definiu 2010 como o Ano Internacional da Biodiversidade. Trago Calvin e Haroldo, nesta tira singular, para que pensemos um pouco a questão do seguinte ponto de vista: O que estamos fazendo, em termos práticos, para preservar a biodiversidade existente em nosso planeta?

A dupla Calvin e Haroldo, criação genial de Bill Waterson, coloca de maneira irônica a questão ao situar o posicionamento do garoto quanto a existência de vida inteligente fora do planeta estar relacionada ao fato de não virem a Terra, onde nós mesmos, seres humanos, não nos preocupamos em preservar aquilo que existe por aqui em termos de vida.

A pluralidade orgânica de nosso planeta, perceptível e estudada em seus vários ecossistemas e paisagens, a cada dia que passa está mais ameaçada. Nossa voraz presença, sequiosa de mais bens, consumo, alimento para o corpo, a alma e a mente - em doses sempre excedentes quanto aquilo que realmente necessitamos - extingue progressivamente plantas, animais, minerais e tudo aquilo que encontra pela frente.

O desenvolvimento sustentável é, ainda, mais uma idéia distante, utópica se levarmos em conta aquilo que os países andaram deliberando nos últimos encontros sobre meio-ambiente, como a reunião em Copenhagen, ocorrida em 2009. Os interesses do capital se sobrepõem aos da Terra agonizante, ainda que vislumbremos no horizonte a morte anunciada de todas as espécies, inclusive a nossa...

Nem mesmo esse argumento, o de que ao prosseguirmos com este insano ritmo de produção estamos nos condenando também a morte, parece mais ser suficiente e convincente  para os líderes globais, as corporações, as pessoas...

Como fazer a nossa parte? De várias formas, como por exemplo: Consumindo apenas aquilo que realmente precisamos para viver, diminuindo o tempo de uso de água e eletricidade, reciclando materiais não-orgânicos, transformando o que é orgânico em adubo e outros produtos reaproveitáveis por nós, fazendo campanhas contra a caça de animais selvagens, lutando e pressionando as autoridades para que o desmatamento e as queimadas deixem de acontecer...

Há muito o que fazer. O que não podemos fazer é cruzar os braços. Todos somos responsáveis pelo que acontece pelo mundo, seja por nossos atos, seja por nossas omissões... Lute pela vida!

Obs. Para saber mais sobre o Ano Internacional da Biodiversidade, entrem no site da Unesco. O Colégio Jardim das Nações, em Taubaté (SP), onde trabalho atualmente como professor de filosofia e sociologia, escola parceira da Unesco, está programando e realizando atividades de conscientização sobre a questão.

Por João Luís de Almeida Machado

Terça-feira, Fevereiro 09, 2010

A vida não admite a omissão...

 

Omissão, de acordo com o dicionário online de português significa o Ato ou efeito de omitir-se em relação a algo ou alguém; Falta, lacuna; Falta de ação no cumprimento do dever; inércia; desídia.

Estive pensando neste fato a partir de recentes aulas de filosofia e sociologia em que trabalhei com meus alunos e também por conta daquilo que estamos vendo acontecer no mundo em vários segmentos.
Cheguei então a conclusão de que nesta vida não podemos nos omitir se quisermos levar adiante nossas existências de forma consciente e engajada. Seja profissional ou pessoalmente, em nossas casas ou na comunidade, o quanto a omissão nos custa, o que já representou ou ainda, para o futuro, o que acabará nos legando?

Já pensaram nisso?

Vamos colocar fatos e dados para que possamos pensar melhor sobre a questão:

- Tenho visto nos jornais que na educação, por exemplo, 50% dos jovens de 15 a 17 anos, de acordo com pesquisas, estão fora da escola. Representam um contingente de aproximadamente 5 milhões de pessoas. Outro dado assustador: 9 em cada 10 alunos da rede pública paulista formam-se no 9º ano (antiga 8ª série) sem saber como deveria os conteúdos de matemática. Em português a situação é também muito ruim, com 2 em cada 10 estudantes sabendo o que deveriam de sua própria língua pátria (na mesma série ou ano escolar).

- O aquecimento global está fazendo com que chova em São Paulo desde o final de dezembro de 2009, período que conta mais de 45 dias e algumas dezenas de vítimas fatais, além de bairros inundados, desabrigados e outros prejuízos. A situação climática não é caótica só por aqui, os efeitos também são sentidos em outras partes do mundo. Só para lembrar: Machu Pichu, no Peru e Cidade do México também sofreram com chuvas pesadíssimas; Os EUA estão tendo a pior nevasca dos últimos 90 anos, o que está paralisando grandes cidades de lá, como Washington, a capital.

- O escandaloso caso de corrupção em Brasília teve novos desdobramentos, com tentativas do governador Arruda de limpar sua barra subornando pessoas através de alguns de seus laranjas...

Pensem só! Se nos omitirmos quanto a isso, o que pode acontecer?

Estudantes fora da escola ou com educação de baixo nível podem representar contratempos sociais graves para o país, redudando até mesmo no apagão de mão de obra previsto por especialistas como fator que pode parar o ciclo de crescimento em andamento no Brasil (fora outras consequências, como violência urbana, gravidez precoce por falta de informação, subempregos, doenças...).

A corrupção impune acaba gerando descrédito nas instituições que regem o país, como o judiciário e os demais poderes. As bases democráticas podem acabar sendo questionadas. A idéia do vale tudo volta a prevalecer e pode influenciar o comportamento geral dos brasileiros, especialmente os menos instruidos.

Os problemas climáticos tendem a aumentar a intensidade de ocorrências e, com isso, os estragos provocados, que além do alto custo econômico e social, podem estar nos encaminhando para situações que a médio ou longo prazo não sejamos mais capaz de solucionar...

Dá ainda para pensar em ficar com os braços cruzados, se omitindo em relação a tudo isso e muito mais? 

Por João Luís de Almeida Machado